A erosão da confiança internacional na estabilidade dos Estados Unidos tem reconfigurado o fluxo de capitais no mercado financeiro mundial. Gestores classificam o fenômeno como “debasement do dólar” — um processo estrutural que vem deslocando investimentos tradicionalmente direcionados à economia norte-americana para países emergentes, metais preciosos e outros ativos reais.
O tema foi o centro da edição mais recente do programa Stock Pickers, que estreou novo cenário sob comando de Lucas Collazo. Participaram do debate Artur Carvalho, sócio e economista-chefe da Truxt Investimentos, e Bruno Garcia, também sócio e gestor da casa.
Questionado sobre as causas da ruptura de confiança, Carvalho apontou fragilidades no sistema de pesos e contrapesos norte-americano. “Há uma falha crescente nas instituições dos EUA”, afirmou, destacando a atuação “mais agressiva e errática” do Poder Executivo nos últimos meses. Para o economista, o uso de ferramentas econômicas como arma política faz outros países temerem a sujeição ao sistema financeiro dos EUA.
Carvalho citou discurso recente do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, em Davos. Segundo ele, quando Washington recorre a instrumentos antes voltados à integração internacional para pressionar outras nações, a resposta global é diversificar reservas. “Mesmo países historicamente alinhados aos Estados Unidos demonstram receio de ter seus ativos congelados a qualquer momento”, observou.
No programa, Collazo ressaltou o chamado Rotation Trade — a saída marginal de capitais dos ativos norte-americanos para outras regiões. Carvalho avaliou que o movimento favorece sobretudo o ouro, que desponta como principal beneficiário da busca por segurança.
Além do metal precioso, gestores registram aumento da alocação em commodities, moedas alternativas e mercados emergentes. A leitura é de que o deslocamento não representa um “soluço conjuntural”, mas um redirecionamento duradouro de carteiras globais.
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Bruno Garcia atribuiu raízes mais profundas à crise de confiança, remontando à crise financeira de 2008. Para ele, o avanço da desigualdade econômica corroeu a legitimidade dos governos, alimentando movimentos antipolítica em várias partes do mundo. “O pobre nunca foi tão pobre, o rico nunca foi tão rico”, disse.
Garcia acrescentou que o atual governo dos EUA opera “sem freio” e costuma agir antes das midterms — quando tradicionalmente perde poder no Congresso. Ele também mencionou decisões controversas da Suprema Corte como fator adicional de tensão institucional.
Embora os Estados Unidos concentrem os holofotes, o gestor salientou que fenômenos semelhantes se repetem na Europa, no Brasil e em outras regiões, com impactos diretos sobre geopolítica, economia e estratégias de alocação de ativos.
Na avaliação dos participantes, o deslocamento de reservas para ouro e outras alternativas tende a continuar enquanto persistirem dúvidas sobre a previsibilidade das decisões em Washington.