Os mercados financeiros retomam as negociações neste domingo (4) sob o impacto do ataque dos Estados Unidos à Venezuela, realizado no sábado (3), que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro. Investidores avaliam possíveis reflexos nos preços de petróleo, ouro, dólar, títulos do Tesouro americano e criptomoedas.
Para Jorge Ferreira dos Santos, professor de finanças da ESPM, o episódio tende a elevar a procura por ativos considerados seguros, como ouro e dívida soberana dos EUA, além da própria moeda norte-americana em diversos países. Segundo ele, os agentes calculam dois cenários: risco de escalada militar regional, com eventuais sanções ou retaliações, e a chance de uma transição política que normalize, no médio prazo, as exportações de petróleo venezuelano.
O petróleo vinha em baixa superior a 18% no acumulado de 2025. Na sexta-feira (2), o Brent para março fechou a US$ 60,75 o barril (-0,16%), enquanto o WTI para fevereiro recuou a US$ 57,32 (-0,17%). O especialista Ed Finley-Richardson, citado pelo site MarketWatch, projeta queda adicional de 4% quando o pregão for aberto, diante da expectativa de aumento da oferta caso Washington assuma o comando da produção venezuelana.
Em pronunciamento, o ex-presidente Donald Trump afirmou que companhias norte-americanas investiriam “bilhões” para restaurar a capacidade do setor no país sul-americano, dono das maiores reservas de petróleo do mundo. Analistas ponderam, contudo, que o incremento significativo da produção pode levar anos, já que o parque petrolífero sofreu com nacionalizações e falta de investimentos desde a década de 2000. Atualmente, a Chevron é a única grande petroleira dos EUA com operações na região.
O ex-CEO da Pimco, Mohamed El-Erian, comentou na rede X que, se os mercados estivessem abertos, seria provável ver o petróleo em baixa, refletindo expectativa de maior oferta, e o ouro em alta, pela busca de proteção. De fato, o metal precioso já atingira recordes históricos em 2025, impulsionado por cortes de juros nos EUA e sucessivas tensões geopolíticas.
A cotação dos títulos do Tesouro norte-americano também tende a se beneficiar, pois a possível queda do petróleo pode reduzir pressões inflacionárias. Para Marchel Alexandrovich, da Saltmarsh Economics, o episódio reforça como as manchetes geopolíticas seguem dominando o humor do investidor.
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Único mercado que permaneceu operando durante a ação militar, o bitcoin mostrava estabilidade: após ser negociado a US$ 90 mil antes do ataque, avançava 0,68% neste domingo, em torno de US$ 91 mil às 12h. A leve variação sugere, por ora, ausência de forte aversão a risco nas bolsas norte-americanas.
Os principais índices de Wall Street encerraram 2025 próximos das máximas históricas, com ganhos de dois dígitos num ano marcado por guerras tarifárias, políticas monetárias restritivas e tensões geopolíticas. Na última sexta-feira, o dólar se fortaleceu frente a uma cesta de divisas, embora tenha recuado no Brasil.
Especialistas como Brian Jacobsen, da Annex Wealth Management, lembram que choques iniciais costumam provocar movimentos de defesa, mas o apetite por risco pode retornar rapidamente caso o conflito não se amplie.
Com a reabertura dos mercados, investidores acompanharão de perto cotações de petróleo, ouro e dólar, além de possíveis anúncios sobre sanções ou medidas que afetem a logística de exportação na América do Sul.