São Paulo – A crise que derrubou o Banco Master envolve investigação policial, liquidação decretada pelo Banco Central (BC) e conexões com figuras de peso na política e no Judiciário.
Daniel Vorcaro ingressou no mercado em 2017, quando comprou parte do então Banco Máxima. Dois anos depois assumiu o controle e, em 2021, rebatizou a instituição como Banco Master. A estratégia de expansão se baseou na oferta de CDBs com rendimento elevado – em agosto, chegavam a 120% do CDI, acima da média de mercado.
Antes do setor financeiro, Vorcaro trabalhou oito anos no Grupo Multipar, empresa imobiliária da família em Belo Horizonte. Ganhou repercussão ao investir R$ 300 milhões na SAF do Atlético-MG e comprar 80% do projeto Fasano Itaim, além de adquirir os bancos Voiter e Will Bank em 2024.
A Polícia Federal (PF), o Ministério Público Federal (MPF) e o BC apuram esquema estimado em R$ 12 bilhões. A suspeita é de fabricação de carteiras falsas de crédito consignado, vendidas ao próprio Master e depois ao BRB (Banco de Brasília), inflando balanços. A operação levou à prisão de Vorcaro e apontou uso de títulos de baixo valor – certificados do extinto Besc – para mascarar operações via fundos da gestora Reag.
Horas após a prisão do controlador, o BC decretou a liquidação extrajudicial do Master, alegando “grave crise de liquidez” e violações às normas do Sistema Financeiro Nacional. A medida retirou o banco de operação. Uma oferta prévia da pouco conhecida Fictor Holding Financeira, apoiada por investidores dos Emirados Árabes, previa aporte de R$ 3 bilhões, mas passou a ser tratada pela PF como possível tentativa de fuga do banqueiro.
Com a liquidação, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) precisará desembolsar cerca de R$ 41 bilhões para 1,6 milhão de depositantes e investidores, limite de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. Supera o resgate do Bamerindus, de R$ 20 bilhões (valores atualizados) em 1997. O FGC dispõe de R$ 122 bilhões em caixa e não vê risco sistêmico.
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Antes da crise, o Master contratou o escritório de familiares do ministro Alexandre de Moraes (STF) por R$ 3,6 milhões mensais. Também contou com consultoria de Ricardo Lewandowski, Gustavo Loyola, Henrique Meirelles e Guido Mantega, que aproximou Vorcaro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Eventos de grupos como Esfera Brasil, Lide e Voto receberam patrocínio do banco. Mais recentemente, o ex-presidente Michel Temer foi acionado para tentar destravar a venda ao BRB.
No Tribunal de Contas da União, o ministro Jhonatan de Jesus, relator do caso, inicialmente pediu inspeção no BC, mas recuou após críticas internas. Paralelamente, ao menos 46 perfis em redes sociais intensificaram críticas ao BC e aos investigadores, publicando conteúdo direcionado contra a liquidação.
O Banco Master e Daniel Vorcaro não se pronunciaram até o fechamento desta edição.