São Paulo, 12 de janeiro de 2026 – Depois de encerrar 2025 com o quarto recuo anual consecutivo de receitas, os bancos de investimento que atuam no Brasil projetam um início de recuperação a partir deste ano. Levantamento da Dealogic indica que as comissões consolidadas do setor somaram US$ 710 milhões em 2025, 4% abaixo do resultado de 2024.
A retração refletiu sobretudo a ausência de ofertas públicas iniciais de ações (IPOs), o enfraquecimento das emissões de renda variável (ECM) e o desempenho modesto nas fusões e aquisições (M&As). A receita de ECM despencou, enquanto as operações de dívida (DCM) perderam fôlego após o recorde registrado em 2024.
Mesmo em um cenário adverso, cada banco se destacou em um segmento, segundo a Dealogic. O Itaú BBA liderou tanto o ranking geral de receitas quanto o de DCM. No mercado de M&As, o BTG Pactual ocupou a primeira posição. Já o J.P. Morgan ficou no topo do ECM.
Executivos ouvidos pelo NeoFeed apontam fatores que podem destravar novas operações: perspectiva de queda da Selic, realocação de capitais globais para mercados fora dos Estados Unidos e avanço do Ibovespa, que fechou 2025 com alta de 34%, aos 161.125 pontos.
“Estamos vendo espaço para a volta das emissões de ações, com parte dos recursos captados sendo usada em movimentos inorgânicos”, afirma Anderson Brito, head de investment banking do UBS BB.
Entre as ofertas em preparação estão os IPOs da Aegea e da BRK Ambiental. O PicPay optou por listar ações nos Estados Unidos, em operação estimada em US$ 500 milhões. “Há transações que podem chegar ao mercado já entre janeiro e fevereiro”, diz Leonardo Cabral, chefe de IB do Santander.
A expectativa é de maior participação de estrangeiros com estratégia de longo prazo. “Quem entra agora é ‘long only’, não hedge fund”, observa Fabio Nazari, sócio e responsável por mercado de capitais de renda variável do BTG Pactual.
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No campo de M&As, Thiago Rocha, head da área no Santander, relata avanço de negociações iniciadas no fim de 2025. Roderick Greenlees, global head de IB do Itaú BBA, destaca o retorno de grupos chineses a processos de aquisição, especialmente em infraestrutura e energia.
Apesar da possível reabertura do mercado de ações, a renda fixa deve seguir como principal destino dos recursos. “A taxa de juros deve cair, mas permanece alta. A atratividade dos títulos continua elevada”, afirma Miguel Diaz, responsável por emissões externas do Santander.
• ECM local: quarto ano sem IPOs; apenas dez follow-ons, que movimentaram R$ 15 bilhões, ante R$ 25 bilhões em 2024.
• ECM América Latina: volume total de US$ 8,8 bilhões, frente a US$ 4,7 bilhões no ano anterior; J.P. Morgan liderou com US$ 3,8 bilhões; BTG Pactual (US$ 1,5 bilhão) e Itaú BBA (US$ 1 bilhão) permaneceram no ranking.
• M&A: transações dos dez maiores bancos somaram US$ 76,7 bilhões, queda de 2%; BTG Pactual liderou com US$ 17,8 bilhões, alta de 16%; UBS BB ficou em quarto, com US$ 5,8 bilhões.
• DCM internacional: volume de US$ 85,4 bilhões, recuo de 9,7%; Itaú BBA liderou com US$ 19,4 bilhões, queda de 12,3%.
• Dívida local: emissões saltaram de cerca de R$ 300 bilhões em 2021 para R$ 600 bilhões em 2024 e devem encerrar 2025 em torno de R$ 550 bilhões, segundo UBS BB.
Com a retração no mercado de ações, a receita dos bancos em ECM caiu de aproximadamente R$ 3,5 bilhões em 2021 para cerca de R$ 250 milhões em 2025. A manutenção de projetos de investimento e refinanciamento de dívidas, contudo, sustentou a emissão de títulos no mercado doméstico.
Executivos avaliam que, se as condições macroeconômicas se confirmarem e as janelas políticas permitirem, 2026 pode marcar o início de um ciclo mais favorável para ofertas de ações e maior movimentação em fusões e aquisições, embora a predominância da renda fixa deva persistir no curto prazo.