São Paulo – O Banco Central decretou nesta quinta-feira (15) a liquidação extrajudicial da Reag Trust, instituição que atua na administração e custódia de fundos de investimento. A medida foi tomada em meio a investigações que apontam participação da companhia em um esquema de manipulação de ativos envolvendo o Banco Master.
A Reag é alvo de inquéritos da Polícia Federal e do Banco Central. Em agosto de 2025, a instituição foi um dos focos da Operação Carbono Oculto, que apura a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em negócios da economia formal, inclusive no mercado financeiro.
Relatório do Banco Central encaminhado ao Tribunal de Contas da União identificou indícios de fraude em transações entre o Banco Master e fundos administrados pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários. As operações suspeitas totalizariam R$ 11,5 bilhões e foram classificadas como “falhas graves” por infringirem normas do Sistema Financeiro Nacional.
A decisão do BC ocorreu um dia após a Polícia Federal deflagrar a segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga o uso de fundos de investimento para inflar artificialmente o patrimônio do Banco Master. Nesta etapa, foram cumpridos mandados em endereços ligados a Daniel Vorcaro, controlador do banco, a parentes dele e a empresários como Nelson Tanure e João Carlos Mansur, ex-proprietário da Reag.
Segundo a PF, o esquema funcionava da seguinte forma: o Banco Master concedia empréstimos a empresas que, depois, aplicavam os recursos em fundos geridos pela Reag. Esses fundos compravam ativos sem valor de mercado, mas superavaliados, ocultando prejuízos da instituição financeira. Investigadores suspeitam que parte dos fundos pertencia a laranjas de Vorcaro.
Fundada em 2012 por João Carlos Mansur, a Reag passou por rápido crescimento, impulsionado por aquisições e diversificação de investimentos. A companhia também patrocinou o cinema Belas Artes, ícone cultural de São Paulo. Em setembro de 2025, porém, anunciou uma reestruturação que retirou Mansur do controle. A saída ocorreu por meio de um management buyout (MBO) concluído em 6 de setembro, parte de uma estratégia para recuperar a reputação abalada pelas investigações.
Imagem: redir.folha.com.br
Dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostram que, em novembro, a Reag administrava R$ 352 bilhões, ocupando a 11ª posição entre as maiores gestoras do país. No site da instituição, constava a administração de 625 fundos de investimento.
Com a liquidação extrajudicial, os fundos administrados pela Reag ficam congelados, mas não são encerrados automaticamente. Cabe ao Banco Central ou aos próprios cotistas indicar uma nova administradora. Enquanto isso não ocorre, as carteiras permanecem bloqueadas para aplicações ou resgates.
De acordo com o professor de finanças do Ibmec, Cristiano Correa, caso nenhum gestor aceite assumir, os fundos podem ser liquidados e o resultado – positivo ou negativo – será rateado entre os cotistas. “Fundos pouco rentáveis ou muito complexos costumam ter mais dificuldade para encontrar um novo administrador; já fundos atrativos, normalmente, encontram substituição com rapidez”, explica.