As tarifas recordes adotadas pelo presidente Donald Trump não conseguiram cumprir a promessa de recuperar empregos industriais nos Estados Unidos. Desde abril, quando o governo declarou o “Dia da Libertação” para marcar o início do pacote protecionista, o setor perdeu 72 mil postos de trabalho, totalizando 12,7 milhões de empregados.
As medidas impõem as taxas mais altas desde a Grande Depressão. Embora tenham protegido siderúrgicas da concorrência externa, elevaram os custos de cerca de metade das importações, composta por insumos utilizados na produção doméstica. O resultado foi uma sequência de cortes em diferentes segmentos.
No ramo automotivo, fabricantes de veículos e autopeças enxugaram aproximadamente 20 mil vagas desde abril. Já a indústria de semicondutores eliminou mais de 13 mil, segundo Gary Winslett, diretor do Middlebury College especializado em política econômica internacional.
“2025 deveria ter sido um bom ano para o emprego industrial, e isso não aconteceu. É preciso responsabilizar as tarifas”, afirmou Michael Hicks, diretor do Centro de Pesquisa em Negócios e Economia da Universidade Ball State, em Indiana.
Levantamento do Federal Reserve de Richmond feito em novembro mostra que 57% dos fabricantes médios e 40% dos pequenos não têm clareza sobre o custo dos insumos. Entre grandes companhias, a taxa cai para 23%. As menores também foram mais propensas a adiar investimentos em novas fábricas e equipamentos.
Os problemas não se resumem às tarifas. As folhas de pagamento industriais começaram a recuar no início de 2023, quando juros mais altos encareceram empréstimos — hoje, bancos cobram cerca de 6,75% dos clientes mais bem avaliados. Além disso, consumidores vêm direcionando gastos para serviços presenciais, reduzindo a demanda por bens duráveis adquiridos em massa durante a pandemia.
Casos de cortes se espalham. Em dezembro, a Westlake, produtora de químicos industriais com sede em Houston, suspendeu quatro linhas na Louisiana e no Mississippi, colocando 295 funcionários em licença por causa de demanda fraca e excesso de capacidade global.
Imagem: redir.folha.com.br
Apesar das demissões, a produção industrial subiu em 2025 e atingiu o maior nível em quase três anos, segundo o Federal Reserve. Integrantes do governo argumentam que a combinação de tarifas, pressão sobre CEOs e incentivos fiscais — que permitem abatimento acelerado de investimentos e despesas em pesquisa e desenvolvimento — está estimulando novos projetos.
O gasto com construção de fábricas é hoje mais de três vezes superior ao registrado quando Trump chegou à Casa Branca pela primeira vez, embora ainda abaixo do pico observado no governo Biden. Em 2025, foram anunciados aportes da Stellantis, da Whirlpool e da T. RAD North America, que planeja abrir uma unidade de autopeças em Clarksville (Tennessee) com 928 vagas.
Para Nick Iacovella, porta-voz da Coalition for a Prosperous America, a queda de cerca de 1% no emprego industrial no último ano é menos significativa do que o avanço nos investimentos. “Esses projetos levam tempo até aparecer nos dados de emprego”, afirmou.
O desafio de reverter a perda de postos em fábricas não é novo. O emprego industrial norte-americano alcançou o pico de 19,5 milhões em 1979 e tem encolhido, em grande parte devido à automação. No primeiro mandato de Trump, o setor criou 421 mil vagas, mas perdeu mais de 1 milhão durante a pandemia. Sob Joe Biden, subsídios públicos impulsionaram contratações, que chegaram a superar em 100 mil o melhor momento da gestão Trump, antes de voltarem a cair até o fim de 2024.
Na terça-feira (13), ao discursar no Detroit Economic Club, Trump exaltou o que chamou de “virada econômica mais forte e mais rápida da história” e declarou que “o boom econômico de Trump começou oficialmente”. O crescimento do número de empregos, porém, continua fora do radar.