A Vitol concluiu a primeira compra de petróleo venezuelano destinada aos Estados Unidos desde as invasões e ataques de quase duas semanas atrás. O negócio, avaliado em US$ 250 milhões (R$ 1,34 bilhão), contou com a atuação direta de John Addison, negociante sênior que doou aproximadamente US$ 6 milhões (R$ 32,24 milhões) para comitês que apoiam a campanha de reeleição do presidente norte-americano, Donald Trump.
Addison desembolsou US$ 5 milhões em outubro de 2024 para o Maga Inc e mais de US$ 1 milhão para outros dois PACs alinhados a Trump, segundo dados do OpenSecrets. Na última sexta-feira (9), ele acompanhou Ben Marshall, chefe da divisão americana da Vitol, em reunião na Casa Branca com o presidente. A Vitol foi a única companhia presente com dois executivos de alto escalão.
Durante o encontro, Addison prometeu a Trump “o melhor preço possível” pelo petróleo venezuelano, ressaltando que isso reforçaria a influência norte-americana sobre Caracas. A porta-voz da Casa Branca, Taylor Rogers, afirmou que o presidente “age sempre no melhor interesse do povo americano” e classificou como “tentativa cansativa” as críticas sobre possíveis conflitos de interesse.
O acordo com a Vitol inaugura o plano do governo dos Estados Unidos de comercializar até 50 milhões de barris de petróleo venezuelano. Uma fonte do Departamento de Energia informou que a Vitol e a Trafigura — que também fechou compra de US$ 250 milhões — foram selecionadas por estarem “dispostas e capacitadas” a realizar as operações iniciais. Ambas deverão revender o produto a seus clientes.
A Trafigura gastou US$ 525 mil em lobby em 2024 e 2025, conforme o OpenSecrets. Já o braço americano da Vitol é sediado em Houston, base de grande parte da cadeia petrolífera do país.
Após a captura do presidente Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, Washington declarou que pretende controlar a indústria petrolífera da Venezuela “por tempo indeterminado”. O governo impôs embargo naval à nação caribenha e incentiva empresas ocidentais a destinar US$ 100 bilhões para reconstruir a infraestrutura local e ampliar a produção.
Um integrante da administração Trump afirmou que a “maioria” do petróleo deverá ser vendida a compradores nos Estados Unidos, mas a Vitol e a Trafigura não detalharam possíveis restrições de revenda. O secretário de Energia, Chris Wright, declarou na quinta-feira (15) que o barril venezuelano foi negociado com valor 30% superior ao obtido pelo regime de Maduro três semanas antes.
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Antes da invasão, sanções norte-americanas forçavam Caracas a conceder descontos consideráveis, vendendo principalmente para pequenas refinarias privadas na China.
A indústria do petróleo tem sido importante fonte de recursos para a campanha de Trump. Em maio de 2024, o republicano prometeu reduzir regulamentações em troca de apoio financeiro durante encontro em Mar-a-Lago. A Chevron, única grande petroleira dos EUA com presença consolidada na Venezuela, investiu US$ 9,2 milhões em lobby e doou US$ 10 milhões em 2024, majoritariamente a candidatos republicanos. A empresa, que também colaborou com a posse de Trump — assim como a ExxonMobil e outras gigantes do setor —, negocia nesta semana ajustes de licença para aumentar produção e exportação de petróleo venezuelano.
O primeiro-ministro de Curaçao, Gilmar Pisas, informou na quinta-feira que o carregamento inicial de petróleo venezuelano adquirido por Vitol e Trafigura chegou ao terminal de Bullen Bay. Construída originalmente pela Shell, a instalação comporta superpetroleiros com mais de 1 milhão de barris, capacidade que a maioria dos portos norte-americanos não possui devido à profundidade e largura limitadas de seus canais. Bullen Bay foi designado centro de armazenamento e distribuição do óleo e será operado pelas duas tradings.
Novas vendas de petróleo venezuelano aos Estados Unidos são esperadas nos próximos dias, segundo fonte do governo norte-americano.