Seis anos depois de prometer trilhões de dólares para combater o aquecimento global, as principais instituições financeiras dos Estados Unidos abandonaram ou reduziram de forma drástica suas metas climáticas. Alianças que deveriam redirecionar capital para energia limpa praticamente se desfizeram, indicadores de interesse em sustentabilidade despencaram e o setor passou a reforçar investimentos em carvão, petróleo e gás.
Em janeiro de 2020, Larry Fink, diretor-executivo da BlackRock, escreveu que governos, empresas e investidores precisavam “enfrentar as mudanças climáticas”, anunciando que os US$ 7 trilhões sob gestão da companhia seriam usados para esse fim. Dias depois, Fink chegou ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, coberto por um cachecol estampado com “listras de aquecimento” que representam 150 anos de elevação da temperatura global.
A declaração provocou uma onda de adesões. Bancos como JPMorgan, Citigroup e Bank of America assumiram metas alinhadas ao Acordo de Paris, criaram fundos ambientais e anunciaram que deixariam de financiar perfurações no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico. O mercado abraçou a sigla ESG (ambiental, social e governança), e a Glasgow Financial Alliance for Net Zero (GFANZ) — formada em 2021 sob a chancela da ONU — reuniu mais de 450 instituições que controlavam cerca de US$ 130 trilhões em ativos.
A demanda partiu principalmente de fundos soberanos europeus e asiáticos, que pediam produtos sustentáveis. A BlackRock captou quase US$ 25 bilhões em novos recursos para fundos ESG apenas em 2021. Mesmo assim, vozes internas questionavam o potencial de retorno desses produtos. “Esses fundos não tornariam o mundo melhor nem gerariam ganhos superiores”, comentou Terrence Keeley, executivo que deixaria a gestora em 2022.
Enquanto executivos discursavam na COP26, em Glasgow, tesoureiros estaduais republicanos reuniam-se em Orlando para reagir. Nos meses seguintes, retiraram mais de US$ 1 bilhão aplicados na BlackRock. Organizações como Heritage Foundation, Heartland Institute e American Petroleum Institute ampliaram a ofensiva, acusando empresas de descumprirem o dever fiduciário ao apoiar políticas “liberais”.
Em 2022, o grupo Race to Zero, parceiro da GFANZ, passou a exigir que participantes cortassem laços com companhias de carvão. O ajuste acendeu alertas em Wall Street e gerou ameaças de processos por suposta formação de cartel. A GFANZ rompeu com o Race to Zero no fim daquele ano, mas a pressão política persistiu: Legislativos controlados por republicanos apresentaram mais de 100 projetos contra práticas ESG, e o Texas abriu investigações sobre BlackRock e outras gestoras.
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Após a reeleição de Donald Trump em novembro de 2024, quase todos os grandes bancos e gestoras norte-americanas deixaram a Net-Zero Banking Alliance, levando ao colapso do grupo. Na sequência, o movimento atingiu a Net Zero Asset Managers, que suspendeu atividades e promete se reorganizar em 2026.
O Bank of America voltou atrás em compromissos que restringiam financiamentos a carvão e perfurações no Ártico. A BlackRock reduziu substancialmente o apoio a propostas ambientais de acionistas. Em sua carta anual mais recente, Larry Fink não mencionou clima — falou apenas na necessidade de “pragmatismo energético”.
Apesar da retração corporativa, os EUA investiram US$ 279 bilhões em energia limpa no ano passado, montante recorde. Contudo, a palavra “clima” nas teleconferências de resultados caiu 75% em 12 meses, segundo a Bloomberg. Investidores também retiram dezenas de bilhões de dólares por trimestre de fundos ESG.
Na próxima semana, Fink — agora copresidente do Fórum Econômico Mundial — receberá Trump em Davos. A pauta principal do encontro não será clima, e sim inteligência artificial e geopolítica, simbolizando a guinada de Wall Street para longe dos compromissos assumidos em 2020.