O ano de 2026 começa com gestores de recursos de olho em três vetores que podem definir o comportamento dos ativos brasileiros: a desvalorização do dólar, a migração de capital para mercados emergentes e o elevado diferencial de juros do Brasil. Apesar do cenário externo favorável, a corrida eleitoral e a necessidade de ajustes fiscais exigem prudência, sobretudo entre investidores locais.
Durante participação no programa Carteiros do Condado, do podcast Stock Pickers, a head de produtos e relacionamento da XP, Priscila Araújo, afirmou que os fundos continuam a se beneficiar do “carrego” de posições vendidas em dólar e compradas em real, apoiadas em um dos maiores diferenciais de juros do mundo. “Esse diferencial deve permanecer ao longo do ano”, disse.
Segundo a executiva, a performance da Bolsa brasileira dependerá de fatores distintos em cada etapa do calendário:
• Até março: política monetária será o principal direcionador;
• De abril a outubro: o debate eleitoral ganhará protagonismo;
• Após outubro: o comportamento dos ativos dependerá do programa econômico do candidato eleito.
Priscila observou que muitos gestores domésticos já reduzem risco por receio do pleito, enquanto investidores estrangeiros mantêm posições relevantes em Vale (VALE3) e em empresas de metals & mining, segmento que recebeu forte aporte externo em 2025.
Para Lucas Collazo, apresentador do Stock Pickers, “2026 será ditado por fluxo e política: o cenário externo aponta a direção, o doméstico define a intensidade”. O analista de fundos da XP, Davi Fontenele, acrescentou que o pano de fundo global segue complexo, com Estados Unidos em ano eleitoral, Europa crescendo pouco e China equilibrando setores tradicionais e de nova economia.
Priscila destacou que, se a tendência de enfraquecimento da moeda norte-americana continuar, emergentes podem ter desempenho positivo, mas o resultado final dependerá do ambiente político interno. Em termos setoriais, ela ressaltou:
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• Agro: enfrenta momento conjuntural adverso;
• Infraestrutura: segue favorecida por benefícios tributários;
• Fundos pós-fixados: tendem a sentir a curva de juros reais;
• Fundos indexados à inflação: ganham proteção e rendimentos maiores.
Fontenele citou análises de casas independentes: a Verde vê sinais de deterioração institucional, enquanto a Vista aponta que o elevado endividamento deixa o país sensível a erros fiscais. Collazo ressaltou que o mercado tenta identificar quem poderá adotar políticas fiscais mais rígidas ou expansionistas. “Uma eventual continuidade do governo atual, com promessas de gastos elevados, ainda não está totalmente precificada”, comentou.
O mercado de crédito, popular entre investidores de varejo, deve permanecer em evidência. “Em 2025, os fundos isentos — debêntures incentivadas, LCIs e LCAs — foram destaque. Para 2026, a expectativa é de queda da inadimplência com a redução dos juros”, afirmou Priscila. Ela lembrou que os fundos de infraestrutura têm demanda cativa por títulos incentivados, sustentando preços e taxas.
Collazo sinalizou crescimento dos produtos de crédito alternativo, como FIDC, pela menor volatilidade e foco em retornos estáveis.
No campo dos fundos de ações e multimercados, Priscila prevê maior captação para os veículos de renda variável, diante de uma proposta de risco mais clara ao investidor. “Multimercados ainda enfrentam desafios de reputação, mas também devem atrair recursos. Será um ano de gestão ativa e acompanhamento constante do cenário”, concluiu.