Brasília – O banqueiro Daniel Vorcaro afirmou à Polícia Federal que não utilizou influência política para impulsionar seus negócios nem pediu favores a autoridades. O depoimento ocorreu em 30 de dezembro passado, no Supremo Tribunal Federal, dentro do inquérito que apura suspeitas de irregularidades na tentativa de compra do Banco Master pelo BRB.
Vorcaro reconheceu, porém, manter relações pessoais e institucionais com nomes de destaque no cenário político, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda, e o ministro do STF Alexandre de Moraes. O banqueiro também contratou como consultores os ex-ministros da Fazenda Henrique Meirelles e Guido Mantega — este último responsável por aproximá-lo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ao responder aos investigadores, o dono do Master declarou que sua própria situação judicial refuta qualquer privilégio: a operação de venda para o BRB foi barrada, ele chegou a ser preso e hoje usa tornozeleira eletrônica. “Se tivesse recorrido a aliados políticos, nada disso teria acontecido”, disse.
O inquérito também analisa a participação de autoridades ligadas ao BRB. O ex-presidente do banco, Paulo Henrique Costa, é apontado como apadrinhado de Ciro Nogueira. Já a vice-governadora do DF, Celina Leão (PP), e o governador Ibaneis Rocha (MDB) mantêm diálogo com o União Brasil para formar alianças nas eleições de 2026.
Vorcaro confirmou ter conversado com Ibaneis “em algumas poucas oportunidades” sobre a venda do Master ao BRB, encontros que ocorreram entre janeiro de 2024 e novembro de 2025, sempre na presença de terceiros. Ele negou ter solicitado intervenção de ministros, parlamentares ou secretários junto ao Banco Central ou ao BRB.
Questionado sobre quais congressistas frequentavam sua casa, o banqueiro declarou ter amigos em “todos os Poderes”, mas recusou-se a citar nomes. Afirmou ainda que nem ele nem o Banco Master fizeram doações eleitorais a partidos ou políticos do DF entre 2022 e 2025, limitando-se a patrocinar eventos de debate institucional.
Imagem: redir.folha.com.br
A PF investiga se houve pressão política para que o BRB comprasse o controle do Master e carteiras de crédito consignado supostamente inexistentes. Pessoas ligadas ao inquérito relatam suspeita de que Paulo Henrique Costa soubesse da fraude antes de autorizar a operação, estimada em R$ 12,2 bilhões — R$ 6,7 bilhões em contratos considerados falsos e R$ 5,5 bilhões em prêmios.
O repasse de recursos teria começado antes mesmo do anúncio de compra, em março deste ano, e continuado até maio. Para os investigadores, é improvável que a direção do BRB desconhecesse o esquema, classificado como “grosseiro”.
Em novembro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, apontando grave crise de liquidez, comprometimento da situação econômico-financeira e violações às normas do sistema financeiro nacional.