São Paulo – A fuga de recursos dos Estados Unidos para outros mercados impulsionou a entrada de dólares no Brasil neste início de ano e derrubou a cotação da moeda norte-americana. Até sexta-feira (23), o dólar acumulava queda de 3,7% frente ao real em 2026, encerrando o dia cotado a R$ 5,287.
Na Bolsa de Valores, o fluxo estrangeiro líquido alcançou R$ 12,35 bilhões até quarta-feira (21), último dado disponível da B3. O montante corresponde a 46% dos R$ 26,87 bilhões registrados durante todo o ano de 2025 e sustentou o rali que levou o Ibovespa ao recorde nominal de 178.858 pontos.
No pregão de quarta-feira (21), quando o índice superou 170 mil pontos pela primeira vez, o saldo externo aumentou em R$ 3,6 bilhões.
Analistas atribuem o movimento a uma realocação global de portfólios em meio às tensões geopolíticas envolvendo o governo Donald Trump, intensificadas pelo interesse dos EUA na Groenlândia. O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de moedas fortes, recua 0,7% no ano.
Henrique Aguiar, diretor da Nova Futura Private, afirma que países receosos de possíveis sanções passaram a vender títulos do Tesouro americano. “Os investidores buscam mercados com tamanho e fundamentos atrativos, e o Brasil oferece isso”, diz.
Mesmo após a alta recente, o múltiplo P/L do Ibovespa está entre 10 e 11, abaixo da média histórica de 12 a 14, segundo Aguiar. Ele avalia que uma melhora nas contas públicas poderia reduzir a percepção de risco e atrair ainda mais capital, possivelmente levando o índice a 200 mil pontos.
Levantamento da Elos Ayta mostra que, até quinta-feira (22), os índices acionários de Peru, Colômbia e Chile renderam mais, em dólares, que Brasil e México. O principal índice peruano subiu 20% em moeda norte-americana, enquanto o Ibovespa avançou 13%.
No mesmo período, o Dow Jones subiu 2,75%, o S&P 500 ganhou 0,99% e o Nasdaq, 0,83%. Na Europa, os ganhos ficaram próximos de 5%, e o S&P Merval, da Argentina, avançou 2,77%.
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Em 2025, o dólar já havia caído 11,19% ante o real, contribuindo para a inflação anual de 4,26%, a menor desde 2018 e abaixo do teto da meta de 4,5%. Aguiar prevê que a continuidade do câmbio favorável pode manter a inflação comportada e abrir espaço para a Selic recuar abaixo dos 12,25% previstos pelo mercado até dezembro.
Ouro e prata também reagiram à busca por proteção. O ouro registrou a melhor semana em quase duas décadas e bateu recorde de US$ 4.979,70 por onça-troy na sexta-feira (23). A prata ultrapassou US$ 100 por onça pela primeira vez.
Com inflação próxima de 4% e Selic a 15% ao ano, o Brasil oferece retorno real superior a 10% para o investidor estrangeiro. A apreciação do real amplia esse ganho.
Para Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, o ambiente de incerteza sobre crescimento e inflação nos EUA limita apostas direcionais e aumenta a volatilidade cambial. Ele aponta como riscos um corte de juros menor que o esperado pelo Federal Reserve e as eleições no Brasil.
Apesar das incertezas, Aguiar acredita que o fluxo positivo pode persistir diante do “novo arranjo geopolítico”, o que permitiria ao Brasil se beneficiar do cenário internacional.