São Paulo – O Ibovespa acumula alta superior a 13% nos primeiros dias de 2026, impulsionado por um ingresso líquido de quase R$ 18 bilhões de investidores estrangeiros até a última sexta-feira (23). O fluxo é o maior para um único mês desde novembro de 2023, quando R$ 21 bilhões entraram no mercado acionário brasileiro até o dia 22.
No ano passado, o principal índice da B3 avançou 34% em reais e 51% em dólares, apoiado pelos R$ 26 bilhões comprados por não residentes. O sócio e analista da Nord Investimentos, Fabiano Vaz, lembra que 2024 foi fraco em termos de fluxo, mas que 2025 marcou a virada para os emergentes. “O choque agora é a velocidade e o volume dessas compras”, afirma.
Analistas relacionam a migração de recursos para mercados emergentes às tensões geopolíticas e a fatores estruturais. A disputa envolvendo a Groenlândia, questionamentos sobre a dívida pública norte-americana e um déficit em conta corrente próximo de 3% do PIB elevam a percepção de risco nos Estados Unidos.
O economista-chefe da Way Investimentos, Alexandre Espírito Santo, destaca a perda de força do dólar: o índice DXY recua cerca de 2% em 2026, enquanto metais como ouro e prata sobem fortemente. “O endividamento elevado das principais economias provoca desconforto e leva capital a buscar mercados que ficaram para trás”, diz.
Adicionalmente, o presidente Donald Trump manteve retórica protecionista, questionou a independência do Federal Reserve e endureceu o discurso tarifário, fatores que pressionaram Wall Street e tornaram bolsas como a brasileira alternativa mais atraente.
Entradas em fundos de mercados emergentes somaram US$ 17,5 bilhões em janeiro, segundo levantamento do BTG Pactual, acima dos US$ 13,1 bilhões de dezembro e dos US$ 9 bilhões de novembro. A fatia do Brasil nesses portfólios subiu de 5,6% no fim de 2024 para 6,4% em dezembro.
Na comparação internacional, as principais bolsas latino-americanas valorizam-se em dólares neste mês: Colômbia (+24%), Brasil (+15%), Chile (+14%) e México (+10%), enquanto o S&P 500 avança 1%.
Com a Selic a 15% ao ano, mas projeções de queda a partir de 2026, analistas veem espaço para uma migração gradual da renda fixa para a variável. O gestor Ângelo Belitardo, da Hike Capital, acrescenta que setores de commodities, bancos e energia sustentam o interesse estrangeiro.
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O volume financeiro médio diário no Ibovespa em janeiro está em torno de R$ 30 bilhões, 32% acima do mesmo período de 2025.
Dados do BTG mostram que, em 2025, estrangeiros focaram suas compras em Vale, Eneva, Sabesp e Axia. Em 2026, Vale continua liderando os aportes, seguida por Petrobras, Marfrig, Prio e Eneva. Detentora de 12% do índice, a mineradora já adicionou cerca de 3 mil pontos à alta de cerca de 18 mil pontos do Ibovespa neste início de ano.
O interesse também aparece nos fundos de índice. A quantidade de cotas do ETF EWZ, que replica a bolsa brasileira no exterior, cresceu 78% ante igual intervalo de 2025 e atingiu o maior nível da série histórica.
Os investidores pessoa física compraram aproximadamente R$ 8 bilhões em ações em 2025, mas seguem com baixa exposição. Fundos locais de ações registraram resgates de R$ 63 bilhões no ano passado; as saídas continuam em 2026, porém em ritmo menor. Apenas 8,7% do patrimônio dos fundos de investimento está alocado em renda variável.
Analistas do Itaú BBA apontam que o Ibovespa superou um patamar importante ao romper 180 mil pontos e veem a região dos 200 mil pontos como próximo objetivo, sustentados pelo desempenho de diversos índices setoriais. Já Fabiano Vaz, da Nord, adota cautela ao lembrar que 2026 é ano eleitoral e reúne incertezas fiscais, monetárias e geopolíticas.
Por enquanto, o forte fluxo estrangeiro segue como principal motor do rali da bolsa brasileira.