São Paulo – Após mais de uma década em que os Estados Unidos dominaram a lista de melhores retornos do mercado acionário, gestores enxergam sinais de que parte do capital internacional pode buscar alternativas fora do eixo norte-americano. A avaliação foi apresentada por Lucas Collazo, apresentador do podcast Stock Pickers, em debate sobre a possibilidade de um ponto de inflexão na alocação global.
De acordo com Collazo, o S&P 500 entregou ganho anualizado próximo de 15% em dólar até o fim de 2025, consolidando o país como destino natural do fluxo estrangeiro. No mesmo intervalo, o MSCI Emerging Markets avançou aproximadamente 8,4% ao ano, diferença que manteve a maior parte dos recursos concentrada nos EUA.
O desempenho inferior dos emergentes afastou gestores institucionais, que reduziram apostas nessas praças. “Quando uma região rende menos por muito tempo, sai do radar”, diz Collazo. O Brasil, por exemplo, representa perto de 4% do MSCI Emerging Markets, mas muitos portfólios carregam posição inferior a essa referência ou até zerada.
Movimentos modestos, portanto, podem provocar impacto expressivo. Ao migrar de posição neutra para acompanhar o peso do índice, o investidor global já injeta volume relevante no mercado brasileiro; qualquer passo adicional o coloca rapidamente em situação overweight.
No ano de 2025, os emergentes voltaram a mostrar ganhos consistentes, indicando resposta a mudanças em dólar, juros e atividade mundial. A eventual desaceleração da moeda norte-americana, vista como obstáculo nos últimos anos, tende a melhorar a equação risco-retorno dessas economias.
Além disso, após longa valorização das ações dos EUA, os múltiplos permanecem mais altos do que nos mercados emergentes. Embora isso não torne automaticamente as bolsas fora do eixo americano baratas, eleva o prêmio de risco oferecido por essas praças.
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Segundo Collazo, empresas brasileiras negociam com múltiplos menores, distribuem dividendos robustos em alguns setores e possuem balanços considerados defensivos. A economia local ainda é fortemente ligada a minério de ferro, petróleo, soja e proteínas — itens que costumam se beneficiar de ciclos de recuperação global.
A conjunção entre valuations descontados e posicionamento leve cria, na visão dos gestores, cenário propício a reprecificação. “Com peso de 4%, o Brasil não precisa virar a principal aposta do mundo para receber fluxo; basta deixar de ser ignorado”, resume o especialista.
Collazo ressalta que a rotação não implica abandono dos EUA, mas maior equilíbrio de forças. Mudanças costumam aparecer primeiro nos dados de fluxo e de posicionamento antes de refletirem em índices de retorno. “Quando os incentivos mudam, o capital se move”, conclui.