Rio de Janeiro – Os dirigentes dos dois fundos de previdência estaduais com maiores investimentos em letras financeiras do Banco Master acumulam passagens ou ligações com a esfera política, segundo levantamento realizado pela reportagem.
Dados do Ministério da Previdência Social, divulgados em novembro, mostram que o Rioprevidência destinou R$ 970 milhões ao papel e a Amapá Previdência (Amprev) outros R$ 400 milhões entre outubro de 2023 e dezembro de 2024. As letras financeiras não contam com garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o que expõe os fundos a perdas após a liquidação do Banco Master, alvo de suspeitas de irregularidades.
O presidente da Amprev, Jocildo Silva Lemos, assumiu o posto em janeiro de 2023 e foi alvo de operação da Polícia Federal nesta sexta-feira (6). Em evento de 2024, ele declarou ter sido convidado para a função pelo senador Davi Alcolumbre (União-AP), reeleito em fevereiro de 2025 para presidir o Senado.
Lemos já atuou como tesoureiro de campanha do parlamentar e aparece em publicações da Liga Independente das Escolas de Samba do Amapá (Liesap) — da qual também é presidente — ao lado do senador. O conselho fiscal da Amprev inclui Alberto Alcolumbre, irmão do congressista.
Em nota, o governo do Amapá informou que a Amprev “se sente lesada” pelo Banco Master, adotou medidas judiciais contra a instituição e obteve bloqueio de pagamentos. Segundo o comunicado, os aportes no Master equivalem a 4,7% da carteira e o patrimônio do fundo cresceu 41% de 2023 a 2025.
No Rio de Janeiro, o advogado Deivis Marcon Antunes presidiu o Rioprevidência de julho de 2023 a janeiro de 2026, quando pediu demissão e foi exonerado pelo governador Cláudio Castro (PL). Ele foi preso pela Polícia Federal na terça-feira (3).
Registros do Diário Oficial fluminense indicam que Antunes ocupou, de janeiro de 2022 a janeiro de 2023, cargo de assessor-chefe na Secretaria de Estado de Transportes, então comandada pelo advogado André Nahass. A passagem não aparece no currículo que constava no site antigo do Rioprevidência.
Imagem: redir.folha.com.br
Pessoas ligadas à política local afirmam que a nomeação de Antunes e de outros diretores partiu do União Brasil, legenda da base de Castro e a mesma de Alcolumbre. A defesa do ex-presidente nega motivação política, classificando-o como “quadro técnico” e citando experiência na Previ e na Refer.
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Ao deixar o cargo, Antunes enviou carta ao governador alegando ter conduzido um “ciclo virtuoso de gestão”, assegurando que todos os atos praticados no fundo seguiram preceitos éticos.
Até o fechamento desta reportagem, não houve manifestação do senador Davi Alcolumbre sobre a indicação de Jocildo Lemos, nem resposta do governo fluminense a questionamentos sobre as nomeações no Rioprevidência.