São Paulo – A expansão acelerada de data centers nos Estados Unidos entrou de vez na pauta política e promete dominar o debate das eleições de meio de mandato, em novembro de 2026. Comunidades rurais, governadores e parlamentares dos dois principais partidos intensificam a resistência aos projetos de gigantes da tecnologia que dependem dessas instalações para treinar e operar modelos de inteligência artificial.
Na quarta-feira (6), o governador da Flórida, Ron DeSantis (Partido Republicano), afirmou que os novos complexos consomem “a energia de uma cidade de meio milhão de habitantes” e geram poucos postos de trabalho, já que “apenas dez pessoas administram um data center”. O político questionou subsídios e defendeu um projeto de lei estadual que dá poder a municípios para barrar as obras e proíbe concessionárias de repassar custos de infraestrutura aos consumidores.
DeSantis não está sozinho. No campo democrata, o senador Bernie Sanders também critica os incentivos concedidos ao setor, colocando-se contra a Casa Branca, que apoia a rápida expansão da IA e ameaça cortar verbas federais de estados que criem obstáculos.
Levantamento da consultoria norte-americana 10Labs indica que quase US$ 100 bilhões em projetos de data centers foram suspensos ou adiados no segundo trimestre de 2025 — soma superior à de todos os trimestres reunidos desde 2023. Responsável pelo estudo Data Center Watch, o pesquisador Miquel Vila relata tendência de alta na contestação popular e legislativa.
Apesar da resistência, Amazon, Microsoft, Google e Meta planejam investir mais de US$ 400 bilhões neste ano na construção de novos parques de servidores, essenciais para sustentar a demanda por serviços baseados em IA.
Análise da organização FrackTracker Alliance mostra que 60% dos data centers em fase de proposta, aprovação ou construção ficam em áreas rurais — redutos tradicionalmente republicanos. Esse fator transforma um problema regional em tema nacional, já que distritos afetados elegem representantes ao Congresso.
Entre as principais preocupações estão:
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“Os EUA hoje não têm capacidade de geração nem de transmissão suficiente para todos os projetos anunciados. A conta pode acabar no colo do consumidor”, alerta Paulo Carvão, ex-executivo da IBM e pesquisador da Universidade Harvard.
Na Virgínia, estado que concentra a maioria dos centros de dados do país, foram protocolados 20 projetos de lei sobre o tema; mais de um terço partiu de parlamentares republicanos. Em New Jersey e outros estados, candidatos que desafiam ocupantes de cargos tentam transformar a pauta em arma eleitoral.
O presidente Donald Trump assinou em dezembro uma ordem executiva para neutralizar regulações estaduais consideradas impeditivas à indústria de IA. O governo federal ameaça reduzir repasses a administrações que atrapalhem os investimentos. A estratégia, porém, esbarra em interesses locais e na pressão de eleitores preocupados com tarifas de energia e preservação ambiental.
Para o pesquisador Paulo Carvão, o debate deve ganhar força à medida que a campanha legislativa avança e seguir em alta até a disputa presidencial de 2028. “Os riscos agora discutidos afetam o dia a dia das pessoas; não é preciso ser especialista em computação para compreender”, resume.
Com o crescimento da oposição, legisladores de ambos os partidos avaliam propostas que tratam, além de data centers, de direitos autorais, transparência de modelos e proteção contra pornografia infantil gerada por IA — sinal de que a politização da tecnologia deve pautar o cenário político norte-americano pelos próximos anos.