Investir em quadros de artistas brasileiros gerou retorno médio anual de 5,5% entre 2012 e 2022, abaixo da inflação medida pelo IPCA (6,0%) e de aplicações como Ibovespa (6,5%) e CDI (7%), aponta pesquisa apresentada no Congresso da Anpec em dezembro de 2025.
O trabalho é assinado por Thais Mesquita, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), e pelo servidor do IBGE Luiz Andrés Paixão. O levantamento utilizou a metodologia de preços hedônicos para identificar o peso de cada característica — técnica, dimensões, autoria, autenticidade, idade da obra e situação de vida do pintor — na formação dos valores praticados em leilões.
Foram analisados dados da Bolsa de Arte, casa de leilões que realizou pregões de 2012 a 2022. Inicialmente, 2.215 pinturas foram identificadas. Da amostra saíram artistas com menos de 20 obras negociadas ou com volume inferior a R$ 2 milhões, resultando em 1.073 registros finais.
A partir de regressões econométricas, os autores calcularam a taxa interna de retorno das obras. Para reduzir distorções provocadas por preços muito altos ou muito baixos (“outliers”), os resultados consideraram medianas em vez de médias.
Segundo Paixão, o desempenho dos quadros brasileiros condiz com pesquisas internacionais sobre o tema. Ele cita o artigo “Unnatural Value: Or Art Investment as Floating Crap Game”, de William Baumol (1986), que aponta oscilações imprevisíveis e retorno real próximo de zero no mercado de arte.
Imagem: redir.folha.com.br
O índice elaborado pelos pesquisadores mostra Raymundo Colares como o pintor brasileiro com maior valorização no período: uma tela sua vale hoje cerca de 30 vezes mais do que as que tiveram menor evolução de preço. Nomes consagrados internacionalmente, como Tarsila do Amaral e Lygia Clark, não entraram no ranking por conta do baixo número de obras negociadas no mercado nacional.
Colares, mineiro de Montes Claros que estudou na Escola Nacional de Belas Artes, foi um dos expoentes dos primórdios da arte contemporânea brasileira. Ele morreu em 1986, aos 42 anos, vítima de incêndio.
Os autores ressaltam que o estudo considera apenas a rentabilidade financeira e não o bem-estar subjetivo associado à posse de uma obra de arte.