Elon Musk anunciou nesta semana a fusão da SpaceX, sua empresa de foguetes e satélites, com a xAI, negócio de inteligência artificial e mídia social. O bilionário afirma que a integração permitirá construir, nos próximos dois a três anos, centros de processamento de IA em órbita terrestre, abastecidos por energia solar e sem “burocracias humanas” que, segundo ele, atrasam o avanço tecnológico.
O acordo eleva a avaliação da SpaceX para US$ 1 trilhão, ante US$ 800 bilhões registrados em dezembro, e atribui valor de US$ 250 milhões à xAI. Com a nova configuração societária, Musk pretende lançar oferta pública inicial (IPO) ainda este ano e captar até US$ 50 bilhões.
A junção de foguetes, satélites, IA e rede social foge aos modelos tradicionais de fusões, geralmente restritas a setores semelhantes. Eric Talley, professor de direito corporativo na Universidade Columbia, avalia que a estratégia “pareceria estranha sem Elon Musk”, mas reconhece que o empresário tem histórico de desafiar expectativas de mercado.
Conglomerados de tecnologia, no entanto, não são novidade: Alphabet reúne Google, YouTube e a fabricante de carros autônomos Waymo; Amazon administra desde operações de nuvem até a franquia cinematográfica James Bond; e a Microsoft controla LinkedIn e a produtora de jogos Activision Blizzard. Até a Tesla, comandada por Musk, incorporou a fabricante de painéis solares SolarCity em 2016, embora o negócio registre prejuízo e fique atrás de rivais como a Sunrun em número de instalações.
A fusão leva a SpaceX a participar diretamente da atual euforia em torno da IA. Fundos de investimento têm direcionado bilhões de dólares a startups do setor na expectativa de retornos rápidos, movimento que Musk pretende aproveitar ao oferecer participação na xAI dentro do pacote da nova SpaceX.
Justus Parmar, CEO da Fortuna Investments e acionista da SpaceX, afirma que recusou investir diretamente na xAI por já deter posição na OpenAI, mas que agora se diz satisfeito por ter acesso indireto ao ativo de IA. Para Ross Gerber, investidor da xAI, Musk tomou a decisão sem consultar todos os sócios, algo incomum em negócios de valor elevado. “Quando você investe com Elon, ele não se preocupa com o que você quer; ele o vê como alguém com sorte de participar do sucesso dele”, declarou.
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Especialistas apontam limites atuais para instalar servidores fora da Terra, especialmente em termos de peso, dissipação de calor e manutenção. Ainda assim, em memorando distribuído a funcionários e investidores, Musk sustenta que centros de dados espaciais serão a alternativa de menor custo para treinar modelos de IA dentro de poucos anos. Ele defende que a eficiência abrirá caminho para avanços científicos “em velocidades e escalas sem precedentes”.
Além dos obstáculos tecnológicos, investidores cogitam o futuro envolvimento da Tesla no conglomerado. Musk já interliga operações: o chatbot Grok, da xAI, foi integrado a veículos da montadora, e aço desenvolvido para foguetes da SpaceX serve na produção da picape Cybertruck. Analistas observam, contudo, que uma fusão formal entre Tesla e SpaceX enfrentaria barreiras legais significativas por conflitos de interesse, já que Musk é o maior acionista de ambas.
Apesar das dúvidas, a trajetória do bilionário mantém o interesse de quem busca exposição à IA. Musk evitou a falência da Tesla em 2008, transformou a SpaceX em referência no mercado de lançamentos espaciais comerciais e agora aposta que seu novo conglomerado obterá desempenho capaz de superar Wall Street.