Startups de IA ressuscitam modelo de jornada 996 e reabrem debate sobre excesso de trabalho

Mercado Financeiro1 minuto atrás7 Visualizações

Empresas de tecnologia, especialmente as focadas em inteligência artificial, voltaram a adotar o esquema de trabalho conhecido como 996 – das 9h às 21h, seis dias por semana – prática que ganhou fama na China há cerca de dez anos.

Nova York vira vitrine

Um dos exemplos mais explícitos é a Rilla, startup instalada em Nova York que desenvolve software de monitoramento de vendedores por meio de IA. Em seus anúncios de emprego, a companhia promete salário competitivo, refeições gratuitas e plano de saúde, mas alerta: “70 horas presenciais por semana”. O diretor de crescimento, Will Gao, diz que a empresa busca profissionais “obcecados” e compara o perfil desejado ao de atletas olímpicos. Segundo ele, não há escala fixa; quem trabalha até de madrugada pode chegar mais tarde no dia seguinte.

Pressão da corrida pela IA

Consultorias de recrutamento relatam que a explosão de investimentos de risco em IA intensifica a disputa por lançamentos rápidos, o que estimula jornadas estendidas. “São negócios que precisam chegar ao mercado antes dos concorrentes”, resume Adrian Kinnersley, que atende empresas na Europa e na América do Norte.

Nesse ambiente opera a alemã Browser-Use, que cria ferramentas para integrar IA a navegadores. Um dos fundadores, Magnus Müller, vive em uma “casa de hacker” no Vale do Silício e afirma buscar candidatos “viciados” em trabalhar. Para ele, quem deseja 40 horas semanais dificilmente se encaixa na cultura da empresa.

Origem chinesa e defensores ilustres

A expressão 996 nasceu no setor de tecnologia chinês, etapa em que o país tentava migrar de fabricante de baixo custo para polo de inovação. O formato foi elogiado pelo bilionário Jack Ma (Alibaba) e por Richard Liu (JD.com). Sob pressões por violações trabalhistas, autoridades chinesas intensificaram a fiscalização em 2021, mas a prática resiste de forma velada. Em 2024, a ex-porta-voz do Baidu Qu Jing perdeu o emprego após defender publicamente o excesso de horas.

Fora da Ásia, o indiano Narayana Murthy, fundador da Infosys, também elogiou a carga de 12 horas por dia, alegando que nenhum país prospera sem “trabalho árduo”.

Vozes contrárias

Para o sócio da Menlo Ventures Deedy Das, muitas startups confundem quantidade de horas com produtividade. Ele prevê esgotamento a longo prazo, embora espere que fundadores se dediquem 70 a 80 horas semanais. A pesquisadora Tamara Myles classifica a “cultura da agitação” como insustentável, mas observa que algumas empresas anunciam abertamente o regime, o que desequilibra a relação de poder quando o mercado de trabalho está restrito ou envolve vistos de trabalho.

Riscos à saúde e limites de eficiência

Estudo conjunto da OMS e da OIT, divulgado em 2021, relacionou jornadas acima de 55 horas semanais a 745 mil mortes por AVC e doenças cardíacas em 2016, elevando em 17% o risco de cardiopatias e em 35% o de derrame. Pesquisas acadêmicas indicam queda de produtividade após 40 horas por semana; a Universidade Estadual de Michigan concluiu que um funcionário com 70 horas rende praticamente o mesmo que outro com 50.

O fenômeno não é novidade no Japão, onde o termo karōshi designa morte por excesso de trabalho e karōjisatsu se refere a suicídios ligados ao estresse ocupacional.

Debate global sobre legislação

No Brasil, tramita no Congresso Proposta de Emenda à Constituição que reduz a jornada de 44 para 36 horas semanais e extingue o modelo 6×1. A matéria, aprovada na CCJ do Senado em dezembro, seguirá para o plenário, Câmara dos Deputados e, posteriormente, sanção presidencial.

No Reino Unido, a lei limita a média a 48 horas por semana, mas os trabalhadores podem abrir mão do teto. Mesmo assim, setores como advocacia e bancos de investimento registram rotinas de 65 a 100 horas, segundo levantamento do site Legal Cheek e relatos do mercado. O ex-executivo da BrewDog James Watt gerou polêmica ao dizer que “equilíbrio entre vida pessoal e trabalho foi inventado por quem odeia o que faz”.

A associação de recursos humanos CIPD, representada por Ben Wilmott, defende foco em “trabalhar de forma mais inteligente”, não em estender jornadas, mencionando evidências de maior risco de doenças cardiovasculares.

Um piloto com 61 empresas britânicas em 2022 testou a semana de quatro dias com o mesmo salário; os resultados apontaram queda no estresse, menos ausências e manutenção da produtividade.

Competição dita o ritmo

Para Kinnersley, o entusiasmo pelo 996 permanece concentrado em startups de IA: “Com 35 horas, seria difícil competir no cenário atual”. Müller, da Browser-Use, relativiza: “No vilarejo agrícola onde cresci, trabalham mais de 12 horas, sete dias por semana. Comparado a isso, nosso esforço parece jardim de infância”.

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