O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) voltou ao centro de críticas depois da exoneração de duas servidoras de áreas estratégicas, movimento que ocorre poucas semanas antes da divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) de 2025, marcada para 3 de março.
A crise atual teve início em 19 de janeiro, quando a presidência do órgão afastou Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais, departamento responsável pelo cálculo do PIB. Na sequência, outros três integrantes da mesma equipe pediram dispensa de suas funções em sinal de solidariedade. Em 28 de janeiro, foi a vez de Ana Raquel Gomes da Silva, da Gerência de Sistematização de Conteúdos Informacionais, ser desligada. Ambas haviam assinado manifestações que criticavam a gestão do presidente Marcio Pochmann.
Nas redes sociais, perfis contrários ao governo federal sugeriram risco de manipulação de estatísticas, já que Pochmann foi indicado pelo presidente Lula em 2023. Técnicos atuais e ex-dirigentes do instituto rejeitam a hipótese. A ex-presidente Wasmália Bivar (2011-2016) afirmou que alterar números exigiria “uma grande conspiração”, algo que, segundo ela, não ocorre.
Para Roberto Olinto, que comandou o IBGE entre 2017 e 2019, o desgaste institucional pode ganhar força na disputa eleitoral de 2026. “Há risco de o IBGE virar alvo de campanha”, disse. Ele avalia que a atual direção “não deu certo” na condução de projetos e no diálogo interno.
Por meio da assessoria, o IBGE negou qualquer impacto nas divulgações e informou ter incorporado novos concursados desde 2023, que representam mais de 20% do quadro efetivo, além de receber aumento de orçamento. O plano de trabalho prevê 269 publicações em 2026, ressaltou a nota.
Pochmann usou o X (antigo Twitter) para defender sua gestão, afirmando que o órgão “vai muito bem” e acusando “mentiras patrocinadas por algumas fontes” com motivação ideológica.
Imagem: redir.folha.com.br
A tensão começou no segundo semestre de 2024, quando o sindicato da categoria, Assibge, protestou contra a criação da fundação IBGE+, que abriria espaço para pesquisas encomendadas pelo setor privado. O projeto foi suspenso em janeiro de 2025, mas divergências continuaram, incluindo mudanças no estatuto da autarquia.
Após as recentes demissões, o Assibge divulgou nota de repúdio em 5 de fevereiro. A entidade reforçou que, embora discorde de decisões administrativas, “não há indício de interferência técnica na metodologia das pesquisas” e que os funcionários não aceitariam “maquiagem ou manipulação de indicadores para fins eleitorais”.
Bivar compartilha a preocupação do sindicato e lamenta a saída de Palis. Para a ex-presidente, o principal risco imediato é um eventual atraso na revisão da base de contas nacionais, trabalho considerado complexo e essencial para refletir transformações na economia, como digitalização e uso de recursos ambientais.
Apesar das críticas, técnicos e antigos dirigentes sustentam que as regras internacionais de estatística continuam sendo seguidas e que a integridade dos dados permanece intacta.