Santa Fé (EUA) – A psiquiatra Anna Lembke, professora da Universidade Stanford, declarou nesta terça-feira (16) que as plataformas Facebook e Instagram, da Meta, foram concebidas para gerar dependência, sobretudo entre crianças e adolescentes. O depoimento ocorreu no processo movido pelo procurador-geral do Novo México, Raúl Torrez, que acusa a empresa de expor menores a “exploração sexual e danos à saúde mental”.
Lembke, responsável pelos programas de pesquisa em dependência de Stanford e mãe de quatro filhos, afirmou ter analisado milhares de páginas de documentos internos da Meta, além de estudos conduzidos pela própria companhia. Segundo ela, recursos como o “rolagem infinita” do Instagram e algoritmos personalizados estimulam a liberação de dopamina, “transformando a conexão humana em algo semelhante a uma droga”.
Ao definir dependência como “uso compulsivo contínuo de uma substância ou comportamento apesar de prejuízos pessoais ou a terceiros”, a especialista listou consequências associadas ao uso excessivo das redes: depressão, ansiedade, transtornos alimentares, automutilação, solidão, ideação suicida, cyberbullying e exploração sexual. Em crianças, acrescentou, são comuns crises de raiva, ameaças de autolesão e insônia.
Documentos internos citados por Lembke revelariam que a Meta utiliza o termo “Uso Problemático da Internet” como sinônimo de dependência, mas evitaria reconhecer publicamente a gravidade do problema. A médica ressaltou que a maioria dos usuários não identifica o próprio vício e necessita de avaliação de um terapeuta especializado.
Entre os indicadores de dependência apontados pela psiquiatra estão frequência de uso, perda de controle, fissura, abstinência e consequências negativas. Embora adolescentes sejam mais vulneráveis devido ao estágio de desenvolvimento cerebral, ela alertou que qualquer pessoa pode desenvolver vício com exposição prolongada.
Lembke também mencionou aviso feito por um pesquisador de segurança da Meta na segunda-feira (15), segundo o qual podem ocorrer até 500 mil casos diários de exploração sexual de menores nas plataformas da empresa. Nos arquivos internos, a companhia admitiria que meninas são mais suscetíveis a danos em comparação aos meninos, que tendem a se envolver mais com jogos eletrônicos.
Imagem: Alexandra Koch via foxbusiness.com
Segundo a especialista, filtros que alteram a aparência ampliam comparações sociais negativas, dismorfia corporal e busca constante por aprovação entre usuárias. Ela criticou ainda o processo de verificação de idade do Instagram, considerado frágil, e classificou os controles parentais como complexos até para pais bem informados.
Outro elemento descrito como “potente” por Lembke é o sistema de notificações, que promove o retorno frequente ao aplicativo. Já a limitação de 24 horas para visualização dos “stories” estimularia o chamado “medo de perder algo” (“FOMO”, na sigla em inglês).
O chefe do Instagram, Adam Mosseri, deve ser ouvido nesta quarta-feira (17). Ainda não há confirmação se o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, prestará depoimento.