Consultoria que sugeriu letras do Banco Master a municípios também orientou aporte em fundo de Vorcaro investigado pela CVM

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A Crédito e Mercado, mesma consultoria que recomendou a compra de R$ 122 milhões em letras financeiras do Banco Master a regimes próprios de previdência (RPPS) municipais, também emitiu parecer favorável ao investimento no fundo Horus Vetor — administrado pela Compostela Capital, empresa ligada ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e alvo de processo por gestão fraudulenta na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) desde 2020.

O Horus Vetor foi gerido pela Compostela, controlada pelos empresários Tiago Schietti e Vicente Conte, antigos parceiros de Vorcaro. A participação do ex-banqueiro e de Conte ocorria por meio da Zion Participações, detentora de 25% da gestora.

Parceria com RPPS

Entre os 13 institutos de previdência que aplicaram recursos no Horus, seis eram assessorados pela Crédito e Mercado: Santo Antônio de Posse, Itapevi, Itanhaém, Ilhabela e Caieiras (SP), além de Campo Mourão (PR). Juntos, esses RPPS aportaram R$ 10 milhões.

Em parecer encaminhado ao Iprem de Santo Antônio de Posse, o CEO da consultoria, Renan Calamia, destacou o “potencial turístico” de Florianópolis, onde o fundo possuía imóveis, e estimou valorização de até 94% nos ativos. O texto, que menciona riscos de mercado, crédito e liquidez, foi replicado para o instituto de Itanhaém, mas assinado por outro consultor.

Atas de Ilhabela e Campo Mourão mostram que a decisão de alocar recursos no Horus teve como base a análise da Crédito e Mercado. O Itanhaém Prev afirmou ter obtido rendimento positivo durante o período em que manteve cotas do fundo e disse que a Polícia Federal arquivou investigação sobre o investimento.

Condenação e defesa

Calamia foi condenado em dezembro de 2023 por gestão temerária ao indicar aportes no Horus desconsiderando restrições regulatórias e a falta de laudo independente. Procurada, a Crédito e Mercado afirmou que apenas avaliou o fundo a pedido de clientes, que não emite recomendações sobre atratividade e que a CVM já encerrou procedimento de supervisão relativo à sua conduta.

Vicente Conte confirmou sociedade com Schietti, mas negou ter ocupado cargo na gestora ou conhecer o fundo Horus Brasil. A defesa de Daniel Vorcaro declarou não comentar o caso.

Investimentos paralelos

Além do Horus, os RPPS de Caieiras, Itapevi, Campo Mourão e Santo Antônio de Posse destinaram cerca de R$ 15 milhões ao Brazilian Graveyard and Death Care Services, fundo administrado e cotizado pelo Banco Master e gerido pela Zion Capital, também ligada a Vorcaro.

Em Ilhabela, a proposta de investimento tanto no Horus quanto no Graveyard partiu de um ex-funcionário da Crédito e Mercado que, à época, trabalhava para a Compostela.

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Imagem: redir.folha.com.br

Pontas soltas e investigações

Auditoria da CVM apontou que gestores da Compostela aplicaram recursos do Horus em empresas próprias e adquiriram ativos cujos pagamentos retornaram a eles. Entre os casos descritos:

  • Em abril de 2017, uma empresa do fundo comprou apartamentos em Florianópolis; parte do dinheiro voltou a um intermediário que repassou R$ 230 mil a Tiago Schietti.
  • Em dezembro de 2017, terrenos e empresas de Tiago e de seu irmão Lucas foram adquiridos pela mesma controlada.
  • Em maio de 2018, o fundo pagou três vezes o valor de mercado por direitos de jazigos funerários; o vendedor transferiu R$ 434 mil a Tiago.

O Horus foi liquidado em 2019, após notificação da Secretaria de Previdência Social sobre o desenquadramento dos cotistas — todos RPPS. Na liquidação, os investidores receberam valor nominal 6% superior ao aplicado.

Em 2020, a CVM abriu processo sancionador contra Lucas e Tiago Schietti e demais gestores da Compostela por gestão fraudulenta. Uma proposta de acordo foi rejeitada pela autarquia em junho de 2023.

Tiago Schietti alegou que o regulamento do fundo permitia transações com partes relacionadas e afirmou que os RPPS obtiveram rendimento médio 2,3% acima da inflação. Por e-mail, Vicente Conte disse que a Zion ingressou na Horus para estruturar investimentos que não avançaram, motivo pelo qual deixou o capital da gestora. Ele confirmou ter sido alvo de mandado de busca na operação Compliance Zero, mas declarou não ter acesso aos autos.

Responsabilidades de gestão

Para o professor Renan Silva, do Ibmec Brasília, gestores de fundos têm dever de lealdade e diligência com os cotistas. Segundo ele, transações com partes relacionadas devem seguir condições de mercado e contar com aprovação de comitê independente ou laudo externo. “Quando os gestores não são cotistas, há forte indicativo de desalinhamento de interesses”, acrescentou.

A reportagem solicitou aos RPPS de Campo Mourão, Caieiras, Itapevi e Ilhabela as análises técnicas que fundamentaram os aportes no Horus, mas não obteve resposta até o fechamento.

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