Um número crescente de profissionais no Reino Unido tem encurtado a semana de trabalho por conta própria, deixando as sextas-feiras para atividades pessoais enquanto mantêm a aparência de expediente remoto.
O publicitário de 38 anos identificado como Tom ilustra a tendência. Nas tardes de sexta, costuma trocar o computador por uma parede de escalada no centro de Londres ou dedicar a manhã aos cuidados de seu cachorro. “Por ocupar um cargo de liderança, é mais fácil para mim do que para um funcionário júnior”, admitiu.
Embora governos britânicos tenham criticado órgãos públicos que testam a semana de quatro dias, diversas empresas privadas adotaram oficialmente o modelo após a pandemia. Segundo o Office for National Statistics, mais de 100 mil trabalhadores migraram formalmente para a jornada reduzida entre 2019 e 2023. A organização 4 Day Week Foundation calcula mais de 500 empregadores já comprometidos com a iniciativa.
Não há levantamento sobre quem encurta a semana sem autorização, justamente pela natureza reservada da prática. Mesmo assim, dados de setores de lazer sugerem mudança de comportamento às sextas:
Kate Palmer, diretora de operações da consultoria de RH Peninsula, afirma que empresas relatam dificuldade para lidar com ausências nas sextas, especialmente em funções cujo desempenho é difícil de medir. “Se o representante de vendas está no campo de golfe depois de receber bônus, vira uma dor de cabeça”, disse.
Enquanto opositores questionam o custo para empregadores e contribuintes, defensores argumentam que o descanso extra aumenta produtividade e bem-estar. O governo escocês registrou ganhos em ambos os quesitos ao testar a medida em dois departamentos no ano passado.
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David Cann, diretor-geral da Target Publishing, que adotou a semana de quatro dias durante a pandemia, observa que o ritmo de trabalho melhora com a redução de horas: “Você conquista funcionários mais leais e mais ágeis”.
A discussão ocorre no centenário da decisão da Ford Motor Company de encerrar o expediente aos sábados, em 1926, marco que consolidou o fim de semana de dois dias.
Mesmo aproveitando as tardes livres para escalar, Tom duvida que a agência onde trabalha possa oficializar a semana reduzida e continuar competitiva. “No setor de serviços, sempre há demanda por respostas rápidas. Resta saber se isso exige toda a equipe em tempo integral”, concluiu.