Berlim — A União Europeia atravessa um paradoxo energético. Em novembro do ano passado, enquanto negociadores climáticos discutiam o fim dos combustíveis fósseis na COP30, em Belém, o bloco anunciava flexibilizações em metas ambientais. Ao mesmo tempo, pela primeira vez, a eletricidade gerada a partir de fontes renováveis superava a proveniente do carvão em todo o território europeu.
A combinação de ameaças externas tem empurrado Bruxelas a manter o rumo da descarbonização. Entre os fatores estão a guerra da Rússia contra a Ucrânia, que na próxima semana completa quatro anos; a postura cada vez mais imprevisível dos Estados Unidos, que vêm impondo tarifas e sugerindo a anexação da Groenlândia; e a concorrência da China, líder em preços e tecnologia de energias limpas.
Desde 2022, a busca por independência do gás russo tornou-se estratégica. A meta de eliminar essa dependência até 2027 está mantida, mas as importações de gás liquefeito dos EUA, intensificadas durante o conflito, revelaram-se onerosas. O recorde de geração renovável em 2025, portanto, resultou menos de convicção política e mais de necessidade imediata.
Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) ilustram o dilema: em 2022, a totalidade da população da UE dependia, em algum grau, da importação de combustíveis fósseis, enquanto os EUA registravam autossuficiência graças, sobretudo, ao gás de xisto. A China, por sua vez, direcionou investimentos para fontes limpas, mesmo tendo se tornado a maior importadora mundial de petróleo.
Pouco depois de o ex-presidente Donald Trump chamar os europeus de “perdedores”, em Davos, por abrirem mão do petróleo do mar do Norte, dez países europeus firmaram acordo para erguer na região o que pretendem ser a maior reserva mundial de energia limpa. O plano prevê 100 GW de potência eólica e uma rede submarina que interligará todos os mercados consumidores participantes até 2040.
Como no Brasil, o gargalo europeu deixou de ser a expansão da oferta renovável e passou a ser a infraestrutura de transmissão e armazenamento.
A fatia de eletricidade gerada por fontes limpas na UE saiu de 16% em 2004 para 29% em 2014 e alcançou 48% em 2024, segundo o Eurostat. Do total de 27 Estados-membros, 12 já ultrapassaram 50%. A Áustria lidera, com 90,1%, impulsionada por 16 hidrelétricas.
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Na ponta do consumo, contudo, o avanço é menos linear. No fim do ano passado, o bloco adiou de 2035 para 2040 o fim dos motores a combustão em carros de passeio e abriu espaço para híbridos plug-in. Críticos temem que a medida repita o “dieselgate”, ao permitir emissões maiores do que as declaradas. Berlim patrocinou o adiamento em defesa de suas montadoras, que perderam terreno na eletrificação para fabricantes chinesas.
Relatório do think tank Ember, com base em números da AIE, aponta que, em 2024, a frota mundial de veículos consumiu o equivalente a 14.042 TWh em gasolina. Considerando eficiência média de 24% dos motores, apenas 3.370 TWh foram efetivamente utilizados. No mesmo ano, as renováveis geraram 4.626 TWh. Se todos os carros fossem elétricos, com rendimento estimado em 84%, bastariam 3.886 TWh — volume que poderia ser coberto apenas pela produção eólica e solar registrada então.
Embora o cálculo sofra contestação, a adoção irrestrita de veículos elétricos pela China indica que a hesitação europeia pode trazer custos competitivos.
Para David Ryfisch, chefe de Política Climática Internacional da Germanwatch, o mundo assiste a uma corrida entre “petroestados” e “eletroestados”. O prognóstico ganhou novo exemplo no início deste mês: o primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, assinou protocolo de intenções para importar, a partir da próxima década, hidrogênio verde produzido em parques solares na Arábia Saudita, maior exportador global de petróleo.
A iniciativa reforça a percepção de que, apesar de ajustes de percurso, a transição europeia para fontes limpas segue condicionada por exigências geopolíticas cada vez mais prementes.