O Executivo federal decidiu não exercer o direito de preferência para adquirir as ações da Eletronuclear que a Axia (antiga Eletrobras) negociou com o grupo J&F, segundo quatro fontes com conhecimento direto do processo. A decisão abre caminho para a conclusão da transação entre as duas empresas privadas.
Pelo acordo de acionistas da Eletronuclear, a União — representada pela estatal ENBpar (Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional) — poderia comprar a participação caso quisesse. O prazo considerado era 13 de fevereiro de 2026, mas o governo optou por não efetivar a compra.
O contrato entre Axia e J&F foi assinado em 14 de outubro de 2025, no valor de R$ 535 milhões. O grupo dos irmãos Batista assumirá ainda a obrigação de integralizar debêntures de R$ 2,4 bilhões na Eletronuclear, além de substituir as garantias hoje mantidas pela Axia.
Em apresentação a investidores no fim de 2025, o diretor financeiro da Axia, Eduardo Haiama, destacou que, além do pagamento pela participação, a empresa ficará livre das garantias vinculadas à estatal nuclear, que passarão a ser responsabilidade da J&F.
A emissão das debêntures promete aliviar temporariamente o caixa da Eletronuclear. O presidente da estatal, Alexandre Caporal, tem alertado que a companhia corre risco de ficar sem recursos para operar as usinas Angra 1 e Angra 2.
A principal fonte de desequilíbrio é Angra 3. Mesmo com as obras paralisadas desde a Operação Lava Jato, o projeto gera gastos anuais de cerca de R$ 1 bilhão — 80% relacionados a dívidas com bancos e 20% a manutenção de equipamentos. Segundo Caporal, a falta de solução para o empreendimento pode provocar uma crise semelhante à enfrentada pelos Correios, que precisaram de um empréstimo de R$ 12 bilhões e ainda podem demandar novo aporte do Tesouro.
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O governo não bateu o martelo sobre a retomada das obras de Angra 3. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defende que a Fazenda adote medidas para viabilizar a conclusão da usina. A equipe econômica, que até então mostrava resistência, passou a sinalizar apoio condicionado à redução da tarifa estimada para a energia nuclear, projetada entre R$ 778,86 e R$ 817,27 por MWh segundo estudo do BNDES.
O valor é considerado elevado pela Fazenda, pois supera, por exemplo, o preço médio de R$ 315 por MWh registrado em recente leilão de energia nova de usinas térmicas realizado pela Aneel.
Com a desistência do governo de exercer o direito de preferência, a Axia aguarda apenas os trâmites finais para concluir a venda de sua participação na Eletronuclear à J&F.