O sistema internacional caminha para um formato sem liderança definida, batizado de “G0”, onde os interesses domésticos se sobrepõem à cooperação multilateral. O diagnóstico foi apresentado por Christopher Garman, diretor para as Américas da Eurasia Group, durante participação no programa Outliers, do InfoMoney.
Segundo Garman, a rivalidade tecnológica, militar e financeira entre Estados Unidos e China dita o ritmo da nova ordem. Apesar do embate, as duas economias permanecem fortemente interligadas, criando um ambiente em que medidas de contenção convivem com alta dependência comercial e de tecnologia.
O esforço por autonomia nas cadeias produtivas transformou os semicondutores — especialmente os fabricados em Taiwan — em ativo geopolítico estratégico. Garman estima em apenas 5% a chance de uma invasão chinesa à ilha até 2026, mas prevê aumento desse risco nos cinco anos subsequentes.
Para o executivo, a instabilidade entre potências já influencia o mercado financeiro com a mesma intensidade de indicadores econômicos tradicionais. CEOs de multinacionais colocam fatores geopolíticos entre suas três maiores preocupações, sinalizando mudança estrutural na avaliação de riscos.
Garman reconhece o vigor da economia norte-americana, porém aponta perda de credibilidade como parceiro estratégico. O ruído político deve pressionar o dólar ao longo do ano. Em eventual novo mandato, Donald Trump tenderia a adotar postura externa mais agressiva, com possíveis pressões adicionais sobre a Venezuela e interesse renovado na Groenlândia.
O objetivo de Pequim, diz o analista, é diminuir vulnerabilidades econômicas e financeiras em relação aos EUA. Ele prevê dois anos de relativa distensão bilateral, seguidos por um período no qual Washington deverá intensificar restrições ao capital e às empresas chinesas em setores estratégicos.
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Na corrida pela liderança em inovação, a China concentra esforços em inteligência artificial de aplicação industrial e produção de chips, enquanto os Estados Unidos priorizam IA de uso geral e soluções voltadas ao consumidor.
Qualquer choque comercial, tecnológico ou militar entre as duas potências, adverte Garman, repercute imediatamente em ativos financeiros, moedas, commodities e projeções de crescimento global.
A guerra na Ucrânia, a desconfiança pública nas instituições ocidentais e a ascensão de líderes com pautas internas reforçam, segundo o especialista, um cenário de “egoísmo estratégico”, reduzindo ainda mais a cooperação internacional.
Para investidores, a conclusão é clara: a geopolítica deixou de ser um ruído periférico e se tornou variável central na formulação de estratégias e na precificação de risco.