São Paulo – O diferencial entre a taxa dos títulos públicos brasileiros de dez anos e o rendimento dos Treasuries norte-americanos voltou a rondar 9,5 pontos percentuais em 2025-2026, sinalizando que o mercado de renda fixa considera a atual condução fiscal tão arriscada quanto a observada entre meados de 2021 e meados de 2022.
• Fim de 2019: o spread atingiu cerca de 5 pontos percentuais, o menor nível da série iniciada em 2015, após a aprovação da reforma da Previdência.
• Meio de 2020 a meio de 2021: o diferencial subiu para cerca de 6,5 pontos, refletindo o início da deterioração fiscal.
• Meio de 2021 a meio de 2022: medidas como flexibilização do teto de gastos, postergação de precatórios e a chamada PEC Kamikaze levaram o prêmio a 9,5 pontos.
• Março de 2023: patamar manteve-se próximo de 9,5 pontos até a apresentação do novo arcabouço fiscal.
• Meio de 2023 a março de 2024: com promessa de superávit primário de 1% do PIB em 2026, o spread recuou a 6,5 pontos.
• Abril de 2024: o governo adiou a meta de superávit de 1% para 2028; o prêmio voltou a subir.
• Primeira metade de 2025: o diferencial superou 10 pontos percentuais e, desde então, oscila em torno de 9,5 pontos.
Além do prêmio mais alto, os rendimentos dos Treasuries ultrapassam 4% ao ano — ante cerca de 2% em 2021-2022 e entre 2% e 3% de 2010 a 2019. Com isso, o custo total para o Tesouro brasileiro supera o observado no período anterior, mesmo com prêmio similar.
Segundo avaliação de analistas, o nível elevado do spread abre espaço para uma eventual “consolidação fiscal expansionista”. Um ajuste entre 1% e 1,5% do PIB em 2027-2028 poderia ser mais do que compensado pela queda de até 5 pontos percentuais no prêmio de risco, reduzindo o custo da dívida, estimulando investimentos e impulsionando o PIB, desde que o pacote alinhe cortes de gastos e aumento de receitas, preservando despesas com alto multiplicador, como investimentos públicos.
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Na visão desses investidores — apelidados de “bond vigilantes” —, a política fiscal atual continua incompatível com a estabilização ou redução sustentada da relação dívida/PIB, o que explica a manutenção do prêmio de risco em patamar considerado “astronômico”.