Uma escalada nos ataques contra o Irã reacendeu o temor de interrupções no abastecimento global de energia, impulsionando o barril de Brent para até US$ 73 na sexta-feira (27) — nível mais alto em sete meses e quase 12% acima do observado um mês antes.
Detentor da quarta maior reserva comprovada de petróleo do planeta, o Irã produziu em janeiro 3,45 milhões de barris por dia, segundo a Agência Internacional de Energia, volume equivalente a menos de 3% da oferta mundial.
Grande parte dessa produção segue para a China, sobretudo para refinarias independentes na província de Shandong, atraídas pelos descontos do produto sob sanções. Dados da empresa de rastreamento Kpler indicam que o petróleo iraniano respondeu por 13% das importações marítimas chinesas em 2025.
Quase todo o óleo bruto iraniano sai pelo terminal da ilha Kharg, a cerca de 25 km da costa. Nas últimas semanas, o local acelerou embarques e esvaziou estoques diante da crescente tensão.
A principal preocupação dos mercados recai sobre o Estreito de Hormuz, por onde transitam diariamente cerca de 21 milhões de barris originados de Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Teerã já ameaçou fechar a passagem em retaliações anteriores.
Analistas como Helima Croft, do RBC Capital Markets, avaliam que, caso o governo iraniano interprete os recentes bombardeios como tentativa de mudança de regime por parte dos Estados Unidos, a resposta poderá ser “mais ampla e disruptiva” do que a breve guerra de junho passado.
Para Richard Nephew, ex-negociador norte-americano hoje na Universidade Columbia, a perda total dos barris iranianos seria absorvível no curto prazo porque a oferta global deve superar a demanda no primeiro semestre de 2026. Mesmo assim, ele adverte que Teerã poderia recorrer a milícias da região para atingir instalações energéticas de terceiros.
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Dan Marks, pesquisador do Royal United Services Institute, ressalta que o regime enfrenta dificuldades econômicas e, por isso, interromper suas próprias exportações só ocorreria em “circunstâncias extremas”.
O aumento de preços verificado na sexta-feira coincidiu com a expectativa de que a Opep discuta neste domingo (1º) um incremento de 137 mil barris por dia na produção de abril — volume que, segundo fonte próxima às negociações, pode ser multiplicado por três ou quatro para acalmar o mercado.
Giovanni Staunovo, do UBS, lembra que Arábia Saudita e estoques estratégicos poderiam compensar perdas iranianas em caso de interrupção breve. Já David Fyfe, da consultoria Argus, aponta consequências imediatas para refinarias chinesas, que teriam de substituir o óleo barato do Irã, Rússia e Venezuela por graus mais caros do Oriente Médio.
Apesar de reiterados apelos do líder supremo Ali Khamenei para diversificar a economia, o Irã continua fortemente dependente do petróleo, observa Nephew. A combinação de sanções e falta de investimentos dificulta o desenvolvimento de outras fontes de receita, deixando o país vulnerável a pressões externas.
Com o risco de conflito regional em aberto, operadores permanecem cautelosos, monitorando possíveis impactos sobre rotas marítimas vitais, instalações de produção e decisões da Opep nas próximas semanas.