A gestora Kinea avalia que a recente escalada de conflito no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, causará apenas um estresse momentâneo nos preços do petróleo. A análise é de Ruy Alves, sócio e co-gestor dos fundos multimercados da casa.
Segundo Alves, o mercado já aguardava alguma retaliação iraniana após a morte do líder supremo Ali Khamenei e de integrantes da cúpula militar do país. “Quando o risco não é mensurável, o prêmio é maior. Agora ele pode ser modelado”, diz o gestor, justificando a leitura menos pessimista.
Para a Kinea, o cenário de preços mais baixos está sustentado por estoques elevados de petróleo russo e iraniano armazenados em navios. “Tem muito petróleo parado no mar. Está sobrando petróleo”, afirma Alves.
Na noite de domingo, os contratos futuros chegaram a subir 12%, mas fecharam a segunda-feira com variação bem menor: WTI a US$ 71 e Brent a US$ 78. Mesmo após rumores de fechamento completo do Estreito de Ormuz — negados em seguida pelos Estados Unidos —, a volatilidade permaneceu contida.
A gestora considera improvável que o Irã consiga bloquear a rota marítima de forma prolongada. Sem uma escalada maior, como ataques sistemáticos à infraestrutura de produção dos países vizinhos ou ações de guerrilha duradouras, a expectativa é de gradual normalização dos fluxos e queda nos preços.
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Alves acredita que a perspectiva de petróleo mais fraco neutraliza temores sobre pressão inflacionária nos Estados Unidos e no Brasil, onde o Banco Central se prepara para iniciar cortes na Selic. Na segunda-feira, o secretário do Tesouro, Rogério Ceron, afirmou que o balanço de riscos da autoridade monetária não deve mudar mesmo se a commodity avançar até US$ 80.
A Kinea encerrou posições vendidas em petróleo antes do ataque, antecipando a alta pontual. No câmbio, a gestora destaca o elevado carrego do real e não vê motivos para alterações estruturais de curto prazo. Na Bolsa brasileira, mantém hedge via índice e busca oportunidades em ações de peso intermediário, após a entrada de capital passivo inflacionar alguns papéis.
Apesar das tensões geopolíticas, Alves ressalta que o verdadeiro vetor de longo prazo para os mercados é a inteligência artificial, apontada por ele como a transformação que efetivamente redesenha empresas, empregos e estratégias de investimento.