São Paulo – O avanço da produtividade, impulsionado pelo uso de Inteligência Artificial (IA), já aparece nas estatísticas e cria espaço para políticas monetárias menos restritivas, avalia Carlos Woelz, sócio da gestora Kapitalo Investimentos.
Em participação no podcast Stock Pickers, conduzido por Lucas Collazo, Woelz afirmou que a combinação entre menor necessidade de contratação e maior eficiência pode permitir cortes de juros. “A produtividade já está aparecendo nos números. Isso significa desemprego baixo, alguma desaceleração, mas produtos mais baratos e margem para ajustar a taxa básica”, disse.
O gestor reconhece que a mensuração de produtividade ainda é “um resíduo, mal medido”, mas sustenta que os movimentos estruturais se tornaram visíveis. “Até pouco tempo atrás, gestores macro não falavam sobre isso porque não aparecia nos dados; agora aparece”, acrescentou.
Apesar da melhora, Woelz lembra que o mundo recentemente “flertou com um precipício” de desaceleração, pressionado por queda de renda e menor geração de empregos. “Se você começa a demitir nesse ambiente, aí sim cai do precipício”, alertou.
Segundo ele, a IA ajudou a afastar a economia global da recessão. Com isso, mesmo choques como altas no preço do petróleo poderiam ser absorvidos com mais tranquilidade caso a produtividade continue subindo. “À medida que você sai do precipício, ganha espaço para manejar a política monetária”, afirmou.
Na visão da Kapitalo, a combinação de crescimento mais forte ou juros mais baixos — um dos dois tende a ocorrer — favorece commodities e ativos de maior risco. Woelz comparou o cenário atual ao ciclo de produtividade de 1994 a 1996, quando cortes na taxa de juros impulsionaram a economia mundial.
Imagem: infomoney.com.br
O gestor ressalta que tensões no Oriente Médio podem interromper a recuperação cíclica, mas observa que o ponto de partida hoje é melhor do que há um ano, com desemprego baixo e maior capacidade de ajuste.
Também convidado do podcast, Bruno Mauad, sócio da Kapitalo, apontou mudanças rápidas nas empresas provocadas pela IA. Ele citou a chegada de máquinas chinesas que dominam linhas de produção e demissões em massa no exterior, como as ocorridas na Block (ex-Square). “A vida de alguns modelos de software vai ficar mais difícil”, afirmou, referindo-se à facilidade de acesso a informações que antes dependiam de terminais profissionais.
Mauad avalia que o Brasil se beneficia por possuir ativos físicos difíceis de substituir por tecnologia. Além disso, grandes empresas de tecnologia, como Google e Amazon, passaram a investir pesadamente em infraestrutura, aumentando a demanda por matérias-primas — um ponto positivo para produtores de commodities.
Ele lembra ainda que países menos produtivos podem obter ganhos extras ao adotar tecnologias já maduras. Ao importar IA, serviços e centros de dados a custos menores, o Brasil recebe um “choque positivo” de preços, embora transformar esse movimento em inovação doméstica ainda seja incerto, ponderou.