Brasília – Notas técnicas da secretaria-executiva do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) classificam como “elevadíssimo” o risco de desabastecimento e de alta de preços dos fertilizantes usados no campo brasileiro, já a partir da safra que será semeada no segundo semestre.
Os documentos, marcados como urgentes e direcionados ao secretário-executivo Irajá Lacerda, relacionam dois fatores principais para a ameaça:
• Após ataques ordenados pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a Guarda Revolucionária do Irã anunciou o bloqueio da via marítima, vital para 20% do comércio mundial de gás natural liquefeito (LNG).
• A interrupção encareceu o fretamento de navios-tanque e elevou o custo do gás, insumo essencial na produção de amônia e ureia, fertilizantes nitrogenados largamente consumidos no Brasil.
• O Mapa alerta que, se o bloqueio persistir por semanas, produtores nacionais enfrentarão gastos maiores e atrasos na entrega; caso se estenda por meses, o problema deve evoluir para falta efetiva de produto, com reflexos diretos em culturas como soja, milho, cana-de-açúcar e café.
• A China decidiu restringir vendas externas de fertilizantes à base de fósforo até meados de 2026 para assegurar seu próprio abastecimento.
• Segundo as notas, o país asiático tornou-se fornecedor ainda mais relevante depois do início da guerra na Ucrânia, que dificultou importações da Rússia e de Belarus.
• A área técnica do ministério projeta déficit de 1 a 3 milhões de toneladas de fosfatados em 2026, o equivalente a até 20% da demanda brasileira, volume considerado suficiente para comprometer a produtividade das safras 2026/2027.
• O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza e figura como o quarto maior consumidor mundial desses insumos, além de ser o principal importador global.
• A combinação de guerra no Oriente Médio e restrições chinesas pode, segundo o Mapa, gerar elevação de custos, redução de oferta e necessidade de acionar linhas emergenciais de crédito rural para produtores atingidos.
• O ministério avalia que a escassez afetaria a segurança alimentar, a competitividade do agronegócio e a economia brasileira.
Imagem: redir.folha.com.br
O governo lançou em 2023 o Plano Nacional de Fertilizantes, que estabelece a meta de reduzir em 50% a dependência de importações até 2050. Entretanto, as notas técnicas destacam a ausência de medidas de curto prazo capazes de mitigar o atual cenário de risco.
Até o fechamento desta reportagem, o Ministério da Agricultura não havia se manifestado sobre o conteúdo das avaliações internas.