A tensão geopolítica dos últimos dias, impulsionada pela ofensiva do Irã e pela disparada do preço do petróleo, elevou a incerteza sobre inflação e juros no Brasil. Nesse cenário, especialistas apontam que os títulos públicos atrelados ao IPCA continuam a funcionar como um “escudo” para o investidor, reforçando o papel de proteção desses papéis contra a perda de poder de compra.
O avanço do petróleo pressionou as expectativas de inflação e provocou abertura na curva de juros locais. Apesar de a sessão desta terça-feira (10) indicar alívio pontual nos mercados, analistas ouvidos pelo InfoMoney avaliam que o estresse recente fortaleceu – e não enfraqueceu – a atratividade dos títulos IPCA+.
“A abertura da curva reforça a atratividade das taxas dos papéis indexados, que repassam a inflação ao investidor e apresentam menor risco do que os prefixados”, afirma Laís Costa, analista da Empiricus Research.
Para investidores conservadores que desejam preservar o poder de compra no horizonte de três a cinco anos, Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research, recomenda NTN-Bs com prazos mais curtos. Já perfis moderado e arrojado podem optar por vencimentos mais longos, apostando em valorização caso a curva de juros recue no futuro.
“É uma oportunidade para quem pode manter o dinheiro aplicado. Se tudo der certo, realiza-se a marcação a mercado em três a cinco anos; se não, leva-se o título até o vencimento”, explica Almeida.
O mercado ainda projeta corte da Selic na próxima reunião do Copom, mas o prolongamento do conflito pode alterar o ritmo do ciclo. “Se o evento se estender até 2026, os cortes podem ser menos intensos ou mais vagarosos”, avalia Almeida.
Imagem: infomoney.com.br
No curto prazo, a maior volatilidade faz o Tesouro Selic voltar a ser alternativa de liquidez para perfis conservadores. “Para quem busca menor oscilação, o produto pós-fixado continua sendo o refúgio natural”, diz o executivo da Suno.
A parcela prefixada da curva já sofria questionamentos antes da guerra. Segundo Tadeu Arantes, chefe de alocação da Ghia Multi Family Office, em fevereiro o mercado precificava Selic próxima de 12% ao fim de 2026, patamar considerado otimista. Após a alta do petróleo e a pressão cambial, a projeção subiu para cerca de 13%, aumentando o risco de perdas nos títulos prefixados de curto prazo.
Ainda assim, analistas sinalizam que investidores dispostos a assumir mais risco podem manter alguma exposição, aproveitando as taxas elevadas, mas de forma seletiva.
Em meio à escalada dos preços de energia e à incerteza inflacionária, a busca por proteção real segue como consenso no mercado de renda fixa. “Com risco de alta do petróleo e, consequentemente, da inflação, o componente de defesa contra o IPCA torna-se ainda mais importante”, conclui Arantes.