A China se aproxima da maior transferência intergeracional de patrimônio de sua história moderna, processo que tende a ampliar a desigualdade e consolidar privilégios, apontam economistas.
Em 1978, pouco antes do boom econômico, o patrimônio médio de um domicílio no país equivalia a cerca de US$ 1,5 mil (R$ 8 mil, em valores atuais). Hoje, chega a aproximadamente US$ 170 mil (R$ 900 mil), multiplicação real de 100 vezes.
Os benefícios, porém, não foram distribuídos de forma equânime. Segundo o Banco de Dados Mundial sobre Desigualdade, os 10% mais ricos concentram quase 70% da riqueza privada — proporção similar à dos Estados Unidos e acima da verificada em boa parte das economias avançadas.
A concentração coincide com o envelhecimento dos detentores de capital. Entre os chineses que possuíam ao menos 5 bilhões de yuans (R$ 3,6 bilhões), 23% tinham mais de 60 anos em 2016; hoje, o grupo de sexagenários ou mais representa 49% desse universo.
Como muitas famílias urbanas seguiram a política do filho único, o patrimônio de dois pais tende a ficar com apenas um sucessor. Simultaneamente, clubes exclusivos e agências de casamento voltadas a milionários vêm ganhando espaço, reforçando laços entre os mais ricos.
A economia chinesa perdeu fôlego, o que acentua o peso da riqueza acumulada. A recente queda nos preços dos imóveis atingiu principalmente a classe média, cuja maior parte do patrimônio está na moradia própria, enquanto os mais abastados, com carteiras diversificadas, sofreram menos.
Pesquisas indicam aumento do pessimismo, em contraste com o otimismo que prevaleceu durante décadas de crescimento. O desemprego entre jovens supera 16%, e parte deles questiona a competição intensa que marca o mercado de trabalho local.
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Apesar do discurso oficial sobre “prosperidade comum”, a China não possui imposto sobre herança nem cobrança recorrente de propriedade, e o tributo sobre ganho de capital apresenta diversas isenções. Somada à redução de impostos sobre consumo, a arrecadação total — excluídas as contribuições previdenciárias — recuou de 18% para 13% do PIB na última década, volume equivalente a três quartos da média de países comparáveis.
Desde o início dos anos 1990, Pequim anuncia que estuda criar um imposto sucessório, mas nunca detalhou a proposta. Avanços em tributar imóveis também ocorrem em ritmo lento.
Autoridades alegam receio de que novos tributos inibam o crescimento ou estimulem fuga de capitais, argumentos considerados frágeis por analistas que veem a desigualdade crescente como ameaça similar. Outra barreira é política: para instituir impostos patrimoniais, seria necessário exigir declaração de bens, o que poderia expor casos de corrupção e pressionar ainda mais o mercado imobiliário.
Especialistas alertam que, sem mudanças, o país corre o risco de ver consolidar-se uma elite permanente e abastada, em contraste com uma população cada vez mais desconfiada da possibilidade de ascensão social.