Suspeitas de espionagem e subsídios acirram disputa bilionária entre iFood e apps chineses no Brasil

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O mercado brasileiro de entrega de refeições, estimado em R$ 110 bilhões para 2025, tornou-se palco de acusações de espionagem corporativa, investigações policiais e fortes aportes financeiros, depois da chegada de concorrentes apoiados por gigantes chinesas.

iFood denuncia abordagem a funcionários

Diego Barreto, presidente do iFood, afirmou ter identificado um “esforço coordenado” para captar segredos comerciais da empresa. Segundo ele, cerca de 500 funcionários receberam abordagens de consultorias estrangeiras via LinkedIn no último ano, com ofertas de pagamentos de até algumas centenas de dólares em troca de informações sobre margens, receitas, novos produtos e tecnologia.

O executivo relaciona o início desses contatos ao anúncio da entrada das chinesas Keeta — controlada pela Meituan — e 99Food, braço da Didi, no país. “Vejo uma coincidência muito grande que me faz acreditar que existe uma conexão”, declarou.

Keeta nega irregularidades e relata sabotagem

Tony Qiu, CEO da Keeta, rebateu as acusações. “Mantemos um padrão muito alto de comportamento ético e legal”, disse, acrescentando que a companhia não recebeu processos ou notificações.

O executivo informou ainda que, um dia após o lançamento do aplicativo em Santos, em outubro passado, um grupo de oito a dez pessoas entrou em restaurantes “fingindo ser funcionários da Keeta”, fotografou sistemas e chegou a desativar contas. A Polícia Civil apura o caso.

Investigações criminais

Denúncias do iFood levaram a polícia a investigar ao menos quatro ex-empregados suspeitos de extrair ou compartilhar dados sigilosos. Três deles passaram a trabalhar na 99. Mandados de busca cumpridos em outubro resultaram na apreensão de equipamentos eletrônicos; a perícia segue em andamento.

Em um dos casos, um ex-colaborador teria baixado informações de 4.900 restaurantes e enviado o material para e-mail pessoal. Outro recebeu cerca de US$ 1.400 de uma consultoria sediada na China após entrevista virtual que, segundo ele, pode ter incluído um representante da Meituan.

Aportes bilionários e concorrência acirrada

Para fincar posição no maior mercado consumidor da América Latina, 99 e Keeta prometeram investir R$ 7,6 bilhões. O iFood, por sua vez, informa ter aplicado R$ 17 bilhões nos 12 meses encerrados em março.

De acordo com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), os pedidos via aplicativos movimentaram R$ 91 bilhões em 2024 e devem alcançar R$ 110 bilhões no próximo ano.

Reações do setor

Maurício Morgado, professor da Fundação Getulio Vargas, avalia que a entrada de novos players foi bem-recebida por parte de restaurantes e entregadores insatisfeitos com a fatia de mercado do iFood, estimada em 80%. O acadêmico classifica as promoções subsidiadas de Keeta e 99 como “muito agressivas”.

Tentativas anteriores de romper essa hegemonia fracassaram: o Uber Eats deixou o Brasil em 2022, um ano depois da primeira saída da 99Food.

Pronunciamentos das empresas

Keeta e Meituan: afirmam cumprir as melhores práticas de mercado e estão dispostas a cooperar com autoridades.
99: declara não tolerar uso de dados obtidos ilegalmente e sustenta que suas atividades seguem código de conduta rigoroso.
iFood: move ações trabalhistas contra ex-funcionários por suposta violação de cláusulas de não concorrência, mas não comenta processos em andamento.

As disputas judiciais e as injeções de capital deverão definir os rumos da competição no setor, que continua a atrair investimentos e fiscalizações em meio à escalada de denúncias.

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