São Paulo – O pesquisador norte-americano Siddharth Kara, especialista em trabalho escravo há 21 anos, lança no Brasil o livro “Cobalto de Sangue”, no qual relata a rotina de garimpeiros que arriscam a vida para extrair cobalto na República Democrática do Congo (RDC) por cerca de US$ 1 por dia.
Publicada em março pela Editora Rocco, a obra custa R$ 89,90 na versão impressa e R$ 44,90 para Kindle. O autor viajou ao sul da RDC em 2018, 2019 e 2021 e acompanhou de perto a atividade de homens, mulheres – inclusive grávidas – e crianças que trabalham em túneis de até um metro de diâmetro por até 12 horas seguidas.
Atualmente, cerca de 70% do cobalto produzido globalmente sai da RDC. Desse total, aproximadamente um terço provém da chamada mineração artesanal, realizada sem licença e em condições precárias. O restante é extraído por grandes companhias, sobretudo chinesas. Segundo Kara, o material retirado ilegalmente se mistura ao fluxo legal, o que impede rastrear a origem do mineral utilizado em baterias de celulares, notebooks e veículos elétricos.
Com tom de reportagem, o livro descreve a estrutura de controle na região: garimpeiros, atravessadores, militares, mineradoras e políticos formam uma cadeia que sustenta a exportação do cobalto. A China responde por 80% da capacidade mundial de refino e ocupa posição central no comércio do mineral, aponta o pesquisador.
Entre os casos reunidos por Kara estão mortes e mutilações causadas pelo desabamento de galerias, crianças obrigadas a permanecer em túneis estreitos e mulheres que extraem minério enquanto carregam bebês nas costas. O autor recorda ter ouvido de um tradutor congolês: “Todo dia morre uma criança aqui para que as pessoas possam ligar seus telefones”.
Imagem: redir.folha.com.br
A expectativa de crescimento da frota de carros elétricos pode elevar ainda mais a procura por cobalto nas próximas décadas. Para Kara, o setor vive uma “encruzilhada”: ou adota medidas que eliminem as violações ou amplia o número de trabalhadores expostos a condições degradantes.
O pesquisador afirma que a diferença em relação ao passado colonial está na quantidade de informações disponíveis hoje. Reportagens, livros, fotos e documentários revelam o que ocorre na RDC, diz ele, e a decisão de consumir ou não produtos feitos a partir desse minério cabe aos usuários de tecnologia.
“Cobalto de Sangue” reúne esses relatos e questiona o papel de fabricantes de eletrônicos, montadoras e consumidores na manutenção de uma cadeia produtiva que, segundo o autor, mistura alta tecnologia a trabalho infantil e mortes diárias.