Brasília, 8 de maio – Um estudo que será apresentado nesta quarta-feira (8) no Congresso Nacional conclui que o Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) perdeu a capacidade de reduzir desigualdades ao longo dos últimos 100 anos. Segundo o relatório “Um século de Imposto de Renda no Brasil”, elaborado pelo centro de pesquisa Justa em parceria com o Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), o sistema atual penaliza rendimentos do trabalho e protege ganhos de capital por meio de isenções e regimes favorecidos.
A iniciativa, coordenada pela diretora do Justa, Eliane Barbosa, contou ainda com apoio do Observatório Social da Política Fiscal da Unilab. O documento integra mobilização que busca embasar uma nova reforma do tributo.
No período de maior progressividade, entre 1947 e 1961, o IRPF possuía 16 faixas de renda e alíquota máxima de 50%. Em 2024, ano em que o imposto completou um século de aplicação efetiva, a tabela tinha apenas cinco faixas e teto de 27,5%, reduzindo a diferença de tributação entre classe média e super-ricos.
O espaço entre a faixa isenta e o início da tributação mais alta também encolheu. Chegou a ser de quase 100 vezes no século passado; se mantido hoje, a maior alíquota incidiria apenas sobre valores que superassem R$ 226 mil mensais. Atualmente, a taxa de 27,5% começa a ser cobrada a partir de R$ 4.664,68.
Em 1964, ganhos de capital respondiam por 60% da receita do IR, enquanto rendimentos do trabalho representavam 18%. Em 2024, o quadro inverteu-se: dois terços (66%) da arrecadação vieram de salários e apenas 29% de capital.
Para os autores, o imposto tornou-se “formalmente progressivo, mas materialmente pouco redistributivo” devido ao achatamento da tabela e à expansão de benefícios concedidos a rendas de capital.
Imagem: redir.folha.com.br
O relatório, versão parcial de um estudo em desenvolvimento, não apresenta uma tabela alternativa, mas lista recomendações:
O trabalho identifica quatro etapas na história do imposto:
Os pesquisadores afirmam que a trajetória observada no Brasil reflete tendência internacional, motivada por argumentos de competitividade fiscal e atração de investimentos, mas sem comprovação de aumento do investimento produtivo.