O mercado de crédito privado dos Estados Unidos, estimado em cerca de US$ 2 trilhões, atravessa um período de estresse, mas sem sinalizar o início de um colapso generalizado, conforme a segunda edição da Pesquisa de Renda Fixa Global da XP, divulgada nesta sexta-feira (10).
O levantamento, realizado entre 26 de março e 1º de abril, ouviu nove gestoras internacionais — BlackRock, JP Morgan Asset Management, Morgan Stanley Investment Management, Franklin Templeton, Blue Owl, BNP Paribas Asset Management, Nordea Asset Management, Pearl Diver Capital e Wellington Management.
Entre as participantes, 56% classificam o momento como uma fase de ajuste de liquidez e reprecificação de risco, enquanto 33% consideram o ambiente estruturalmente saudável, com ruídos pontuais. Outros 11% afirmam ser cedo para uma avaliação conclusiva.
O principal ponto de atenção é a qualidade do crédito originado no auge do mercado, mencionado por 33% das gestoras. A concentração no setor de tecnologia (22%) e o descompasso entre a liquidez dos ativos e dos passivos em estruturas semilíquidas (22%) aparecem na sequência.
A Blue Owl Capital tornou-se o foco das preocupações após restringir resgates em fundos de crédito voltados ao varejo. No primeiro trimestre, o fundo Blue Owl Credit Income, de US$ 36 bilhões, recebeu solicitações de retirada equivalentes a 21,9% das cotas, frente a 5,2% no período anterior. No Blue Owl Technology Income, os pedidos saltaram para 40,7%, ante 15,4% três meses antes.
Para as gestoras consultadas, mecanismos de limitação de resgates não significam deterioração dos ativos quando os fundamentos permanecem sólidos; tratam-se, segundo elas, de medidas temporárias para administrar fluxo.
A percepção de risco sistêmico no setor bancário norte-americano caiu de 43% em dezembro para 11% nesta edição da pesquisa. Os episódios de crédito entre outubro de 2025 e início de 2026 são vistos majoritariamente como casos isolados, atrelados a balanços frágeis e gestão ineficiente.
Imagem: REUTERS via infomoney.com.br
Para 44% das gestoras, as turbulências já estão embutidas nos spreads, que tendem a se ampliar de forma mais seletiva nos próximos 12 meses. Outros 33% preveem estabilidade.
No campo monetário, 67% projetam uma pausa prolongada do Federal Reserve após os primeiros cortes de juros, diante de uma inflação considerada persistente por influência de tensões geopolíticas. O dado de inflação ao consumidor divulgado nesta sexta-feira, em linha com as expectativas, reforçou perspectivas de redução de juros ainda neste ano.
Apesar da cautela, 78% mantêm exposição a crédito, com seleção mais rigorosa de ativos, enquanto 22% aumentam posições. Para a XP, a volatilidade prolongada e a divergência entre políticas monetárias tornam a gestão ativa fundamental para capturar assimetrias sem elevar o risco dos portfólios.
As ações da Blue Owl acumulam queda de 47% no ano. Na quinta-feira (9), a Moody’s revisou para negativa a perspectiva do principal fundo da gestora, citando volume de resgates acima da média do setor.