Washington, — Dados recentes apontam que a inteligência artificial (IA) tem reduzido vagas e dificultado a contratação de iniciantes, enquanto líderes empresariais seguem confiantes na tecnologia.
Em março, a economia dos Estados Unidos criou 178 mil postos de trabalho, praticamente o mesmo patamar do mês anterior, informou o Bureau of Labor Statistics (BLS). O resultado veio em meio à volatilidade de políticas da Casa Branca, aumento dos preços de energia ligado ao conflito EUA-Israel-Irã e impactos da IA na força de trabalho, segundo estudos recentes.
No dia 6 de março, o investidor Marc Andreessen publicou na rede X que os receios de cortes de empregos provocados pela IA seriam exagerados, citando reportagem do Business Insider que apontava 67 mil vagas abertas em empresas de tecnologia — o dobro de 2023, de acordo com o rastreador TrueUp.
Os números de contratações, porém, contam outra história. Dos 178 mil novos empregos registrados pelo BLS em março, 76 mil vieram da saúde, 26 mil da construção, 21 mil de transporte e armazenagem e 14 mil da assistência social. Serviços ligados à tecnologia tiveram desempenho fraco: provedores de infraestrutura de computação cortaram 1 500 vagas, portais de busca praticamente não cresceram e design de sistemas computacionais perdeu 13 mil postos.
Relatório do Goldman Sachs, citado pela revista Fortune, calcula que a IA eliminou cerca de 16 mil empregos por mês no último ano. Estudo da SignalFire, datado de 2025, mostra que a contratação de recém-formados caiu 50 % em comparação ao período pré-pandemia. “A porta que antes estava escancarada para novos graduados hoje mal se abre”, destaca o documento.
O Goldman Sachs alerta que a substituição tecnológica pode impor custos duradouros, levando trabalhadores a “rebaixamento ocupacional”, ou seja, migração para funções mais rotineiras e com menor demanda de habilidades analíticas e interpessoais.
Apesar dos cortes, 80 % dos executivos consultados pela Harvard Business Review afirmam usar IA semanalmente; 74 % dizem obter retorno positivo nas primeiras implantações. Entre os empregados, a percepção é distinta: pesquisa da consultoria Mercer aponta que 43 % consideram o trabalho mais frustrante.
Imagem: cointelegraph.com
Levantamento da Workday indica que, para cada 10 horas poupadas com IA, quase quatro horas são gastas corrigindo erros gerados pela tecnologia. Apenas 14 % dos entrevistados relatam ganhos líquidos consistentes.
O fenômeno do “workslop” — conteúdo aparentemente acabado, mas sem substância — já foi encontrado por 41 % dos trabalhadores, calcula a Harvard Business Review. Cada ocorrência consome cerca de duas horas de retrabalho e afeta produtividade, confiança e colaboração.
Para Brian Solis, diretor de inovação global da ServiceNow, isso cria um “imposto da IA”: mais checagens, retrabalho, ansiedade e queda de confiança.
A OpenAI reconhece o impacto da tecnologia sobre o emprego e divulgou propostas iniciais que incluem expansão da cobertura de saúde, incentivos à poupança para aposentadoria e uma nova agenda de política industrial. A empresa alerta que, sem medidas compatíveis com o ritmo das inovações, instituições e redes de segurança social podem ficar para trás.
Enquanto investidores celebram o potencial da IA, os números mostram que a adoção em larga escala ainda traz desafios imediatos para o mercado de trabalho norte-americano.