Queda dos spreads anima mercado de crédito privado, aponta Bradesco BBI

Mariana CostaMariana CostaRenda Fixaagora mesmo6 Visualizações

O aperto observado nos spreads de crédito nas primeiras semanas do ano começou a se dissipar. Segundo Felipe Thut, head de renda fixa do Bradesco BBI, o prêmio pago pelas companhias em títulos atrelados ao CDI voltou a cair e já se encontra abaixo do patamar registrado na eleição de 2022. Com isso, a expectativa é de que as empresas retornem ao mercado de capitais para captar recursos.

O que mudou nos spreads

Spreads são o “extra” que o investidor exige acima de uma taxa de referência – no Brasil, normalmente o CDI. Em janeiro, eventos pontuais de crédito elevaram esse prêmio para aproximadamente 1 ponto percentual em papéis de companhias com rating AAA e prazo médio de três anos e meio. Hoje, o mesmo spread gira em torno de 0,75 ponto, comparado aos 1,33 ponto observados em 2022.

A redução indica menor percepção de risco e, portanto, custo mais baixo para as empresas emitirem debêntures ou notas comerciais. Para o investidor, o retorno potencial encolhe, mas a normalização de preços tende a aumentar a liquidez do mercado secundário.

Por que a eleição não assusta desta vez

Historicamente, anos eleitorais costumam trazer cautela ao crédito privado. Thut, porém, avalia que 2026 (ano-base da entrevista) mostra dinâmica distinta. O Banco Central já iniciou um ciclo de cortes na Selic e a inflação permanece estável dentro da meta. Isso reduz a incerteza sobre o custo futuro da dívida, variável crucial para precificar emissões corporativas.

  • Selic: com tendência de queda, diminui o piso das taxas de renda fixa.
  • Inflação: controlada, melhora a previsibilidade de fluxo de caixa das empresas.
  • Risco político: investidores focam mais em fundamentos macro do que no calendário eleitoral.

Impacto prático para o investidor pessoa física

  • Debêntures corporativas tendem a reaparecer nas prateleiras das corretoras, mas com cupons menores do que os vistos logo após os eventos de crédito.
  • Fundos de crédito privado podem recuperar captações, sobretudo se conseguirem alongar prazos e diversificar emissões.
  • Spreads mais apertados significam menor prêmio de risco; entender o balanço de cada emissor torna-se ainda mais importante.

Perspectiva de emissões e vencimentos

O Bradesco BBI projeta queda de 10% a 20% no volume total de captações em 2026 frente ao recorde de R$ 737,7 bilhões de 2025, mas ainda assim antevê mercado “bastante ativo”. Parte dessa demanda virá de:

  • Companhias de infraestrutura e utilities, que precisam financiar projetos de longo prazo.
  • Empresas envolvidas em fusões e aquisições, em busca de capital para concluir transações.

Do lado das obrigações, apenas R$ 29 bilhões em debêntures vencem neste ano, número considerado administrável por bancos e companhias. Em 2027, o montante sobe para R$ 51 bilhões, mas o alongamento já realizado pelas empresas diminui o risco de refinanciamento.

E no exterior?

A janela internacional segue aberta. Depois do recorde de US$ 35 bilhões emitidos em 2025, a projeção é de algo em torno de US$ 30 bilhões em 2026. Nomes com amplo reconhecimento global, como Rede D’Or e JBS, já obtiveram spreads considerados baixos em relação às Treasuries, apontou Thut.

Fatores de atenção

  • Novos eventos de crédito: um default relevante pode reabrir prêmios rapidamente.
  • Cenário externo: conflitos geopolíticos ainda podem contaminar o humor dos investidores e pressionar dólar e inflação.
  • Trajetória da Selic: cortes menores do que o esperado podem segurar o ímpeto de emissões.

Em síntese, a normalização dos spreads devolve fôlego ao crédito privado brasileiro, mesmo em meio à volatilidade típica de um ano eleitoral. Para o investidor, o momento exige equilíbrio entre apetite a risco e retorno esperado, além de atenção redobrada à qualidade das empresas emissoras.

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