Os fertilizantes viraram o novo gargalo do agronegócio brasileiro. O conflito que envolve Estados Unidos, Israel e Irã encareceu o insumo e colocou em xeque a expansão de áreas agrícolas que vinha sustentando a liderança do Brasil na soja e no milho. A dependência de importações faz o custo de produção disparar justamente quando as cotações das commodities estão relativamente estáveis.
O que provocou a alta dos fertilizantes?
- Cerca de um terço do comércio mundial de fertilizantes passa pelo estreito de Hormuz, hoje afetado pela guerra.
- Com menos oferta, o preço de produtos como ureia (fonte de nitrogênio) e DAP – fosfato diamônico, importante para o desenvolvimento das plantas – deu um salto.
- Os EUA produzem boa parte do que consomem; o Brasil precisa importar a maior parte do volume usado nas lavouras.
Dependência externa expõe o produtor brasileiro
Desde o início dos anos 2000, a área plantada no Brasil cresceu cerca de 50%, enquanto a dos EUA ficou estável. Esse avanço custou pouco enquanto a terra era barata e o adubo acessível. Agora, porém, muitos produtores relatam margens negativas.
A sazonalidade também pesa: o plantio brasileiro começa em setembro, período em que o fertilizante está caro; já o produtor norte-americano comprou antes da escalada de preços.
Pressão nas margens e no caixa
- Apenas metade do volume de fertilizantes necessário para a safra 2026/27 foi comprado até o fim de maio – normalmente, mais de 60% já estaria fechado.
- Menos adubo implica menor produtividade, o que reduz a receita justamente quando os custos sobem.
- Analistas apontam aumento do endividamento (“superalavancagem”) de produtores que expandiram áreas e agora enfrentam retorno decrescente.
Petrobras volta ao jogo dos fertilizantes
No médio prazo, a Petrobras pretende reativar fábricas desativadas e atender até 35% da demanda de fertilizantes nitrogenados. A iniciativa pode reduzir a vulnerabilidade externa, mas o efeito não deve ser imediato: as tensões no Oriente Médio devem manter os preços elevados por pelo menos seis meses, segundo a consultoria Expana.
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Efeito cascata para o investidor
- Inflação de alimentos: com custo maior no campo, economistas já projetam avanço de até 7% nos preços de alimentos, impacto que pode chegar ao IPCA.
- Selic e renda fixa: pressão inflacionária tende a ser monitorada pelo Banco Central. Qualquer mudança na expectativa de juros influencia títulos públicos, CDBs e outros papéis atrelados ao CDI.
- Ações ligadas ao agro: menores margens dos agricultores podem pesar sobre empresas de máquinas, defensivos e logística, que dependem da saúde financeira do produtor.
- Petroquímicas e Petrobras: a retomada de fábricas de fertilizantes coloca a estatal no radar, embora o projeto leve tempo para gerar impacto relevante no resultado.
Por que os solos brasileiros precisam de mais adubo?
Boa parte das novas áreas abertas no Cerrado possui solos ácidos e pobres em nutrientes. Sem adubação pesada, a produtividade cai rapidamente. Nos EUA, solos mais férteis permitem, em determinados anos, redução do volume aplicado sem comprometer tanto o rendimento. Essa diferença estrutural explica por que o choque de preços pesa mais no bolso do produtor brasileiro.
O que observar nos próximos meses
- Evolução dos preços de ureia e DAP nos portos brasileiros.
- Decisão dos produtores sobre reduzir, manter ou adiar investimentos em máquinas e expansão de área.
- Andamento do plano da Petrobras para reabrir fábricas de fertilizantes.
- Relatórios de inflação e eventuais ajustes nas projeções para a Selic.
- Dados preliminares de produtividade da safra 2026/27, que indicarão o efeito do menor uso de adubo.
Com margens mais apertadas e dívida crescente, o agronegócio brasileiro enfrenta um teste de resistência. O desempenho da próxima safra e a evolução do conflito no Oriente Médio serão decisivos para definir se o país manterá a vantagem conquistada ao longo das últimas duas décadas.