Franqueadoras recorrem a consórcios e sociedade para driblar juros altos e atrair novos investidores

Ricardo AlmeidaRicardo AlmeidaMercado Financeiro6 minutos atrás39 Visualizações

A queda gradual da Selic — hoje em 10,50% ao ano — ainda não chegou ao bolso de quem tenta abrir uma franquia. Na prática, pequenos empreendedores seguem encontrando juros que superam 4% ao mês nos bancos. Para manter o ritmo de expansão, várias redes criaram alternativas de crédito com custo menor ou participação direta no negócio.

Consórcio vira porta de entrada para equipamentos

A consultoria Acelerando Franquias tem recorrido ao consórcio para baratear a compra de máquinas. Na rede Acqua Lavanderia, por exemplo, a taxa fica abaixo de 2% ao mês, quase metade do custo de um empréstimo tradicional. Foi o caminho seguido por Isabela Cardoso Nunes Duarte, que inaugurou uma lavanderia perto da estação da Luz em abril: primeiro adquiriu dois conjuntos de máquinas via consórcio e, 40 dias depois, contemplada, adicionou um terceiro conjunto para atingir o porte ideal exigido pelo franqueador.

Para o investidor iniciante, o consórcio funciona como uma poupança coletiva: não há juros, mas uma taxa de administração diluída nas parcelas. O bem só é entregue quando o participante é sorteado ou dá lance. O modelo reduz o custo financeiro, mas exige planejamento de caixa para suportar possíveis atrasos na contemplação.

Financiamento próprio e unidades híbridas

Na rede de bem-estar Buddha Spa, onde abrir uma unidade pode custar perto de R$ 800 mil, o CEO Gustavo Albanese orienta que o franqueado não se endivide além de 40% do investimento inicial. A marca criou duas soluções:

  • Financiamento interno: taxa inferior à praticada pelos bancos comerciais.
  • Modelo híbrido: a franqueadora entra como sócia minoritária, completando o capital necessário.

Segundo Albanese, o retorno costuma aparecer entre 24 e 36 meses. Para quem busca tíquete mais baixo, a empresa prepara uma versão enxuta da franquia, na faixa de R$ 400 mil a R$ 500 mil.

Capital de giro ainda pesa no caixa

Mesmo quem monta a unidade sem crédito precisa ficar atento ao capital de giro. O engenheiro Yan Willen Covo abriu uma clínica Emagrecentro em 2021 e, quatro anos depois, comprou outra. Para reforçar o fluxo de caixa, optou por refinanciar dois carros quitados, trocando um financiamento empresarial de custo elevado por empréstimo com garantia veicular, geralmente mais barato.

A decisão levou em conta o perfil de consumo dos clientes: em média, os serviços são parcelados em oito vezes. Quanto mais longa a venda a prazo, maior a necessidade de caixa para pagar salários, aluguel e fornecedores enquanto o dinheiro das parcelas ainda não entrou.

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Imagem: Reprodução | Trader Iniciante

Estoque e inflação de custos

No varejo alimentar, o franqueado Marcio Alba, da Minha Quitandinha, sente o peso dos juros no estoque. Ele administra quatro lojas e precisa calibrar o volume de produtos para não imobilizar capital excessivo. Com inflação ainda pressionada em itens de consumo diário, pequenas variações de preço afetam a percepção do cliente e a margem do franqueado, exigindo negociação constante com distribuidores.

Por que o juro continua alto para o pequeno negócio?

A Selic é a taxa básica definida pelo Banco Central; serve de referência para títulos públicos e, indiretamente, para o custo do crédito. Porém, entre a Selic e o empréstimo final existem:

  • Risco de inadimplência – maior em micro e pequenas empresas.
  • Custo de captação dos bancos – ainda atrelado a títulos mais curtos e caros.
  • Spread bancário – margem que cobre despesas, impostos e lucro das instituições.

O resultado são taxas mensais que ultrapassam 4%, incompatíveis com a margem de muitas operações de franquia, especialmente nos primeiros anos.

O que observar antes de assumir crédito

  • Peso da parcela: especialistas recomendam que o serviço da dívida não ultrapasse 40% do investimento inicial, mantendo folga para capital de giro.
  • Prazo de retorno: redes como Buddha Spa estimam break-even em até 36 meses; alinhar expectativas evita frustração.
  • Cláusulas de consórcio: a contemplação pode demorar; prepare reservas.
  • Garantias exigidas: refinanciar veículos ou imóveis pode reduzir a taxa, mas o bem fica comprometido.

Impacto para o investidor iniciante

Para quem planeja entrar no universo das franquias, o atual ciclo de juros pede disciplina financeira e análise detalhada do contrato. Consórcios e financiamento interno aliviam o peso do crédito bancário, mas não eliminam riscos. Avaliar o fluxo de caixa, a demanda local e o suporte oferecido pela marca continua sendo o primeiro passo — antes mesmo de comparar taxas.

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