Seguradoras brasileiras ajustam preços e equipes diante do El Niño, que pode multiplicar sinistros

Ricardo AlmeidaRicardo AlmeidaMercado Financeiro15 horas atrás41 Visualizações

O início de um El Niño classificado pela agência americana NOAA como potencialmente “muito forte” até o verão de 2027 levou as seguradoras a revisar cálculos de risco, aumentar provisões e preparar mutirões de atendimento para a primavera. A avaliação é de executivos ouvidos pela Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg) e grandes companhias como Bradesco Seguros, Porto Seguro e Tokio Marine.

Por que o fenômeno preocupa as seguradoras

O El Niño aquece o Pacífico e altera a circulação de ventos, o que, no Brasil, costuma gerar:

  • Chuvas e vendavais mais intensos no Sul e Sudeste, com risco de alagamentos urbanos.
  • Seca prolongada em parte do Centro-Oeste e do Norte, aumentando a chance de quebra de safra.

Esses eventos fazem crescer o número de sinistros — quando o cliente aciona a cobertura para receber indenização — pressionando o caixa das seguradoras e, em última instância, os preços dos prêmios.

Coberturas climáticas ainda são minoria

A FenSeg estimava, em 2021, que menos de 1 % das residências brasileiras tinham proteção contra alagamento. Depois das enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024, a procura subiu, mas segue baixa:

  • Bradesco Seguros: 4 % a 6 % das apólices residenciais cobrem inundações (6 % a 7 % no Sul).
  • Porto Seguro: apenas 3 % incluem alagamento; 50 % cobrem vendaval e 80 % quedas de energia.

Segundo a Porto, eventos climáticos geram 29 % da receita de prêmios residenciais, mas respondem por 48 % de todas as indenizações. O desequilíbrio sinaliza maior risco para o setor e tendência de encarecimento das coberturas nos próximos ciclos de renovação.

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Imagem: Reprodução | Trader Iniciante

Agronegócio reduz contratação, mas risco aumenta

No campo, o caminho foi inverso: a área segurada caiu de 7,1 milhões para 3,2 milhões de hectares em 2025, e o valor dos prêmios recuou 7 % no primeiro trimestre de 2026. Parte das seguradoras limitou a exposição para proteger capital próprio. Para o investidor atento ao setor agrícola, o movimento amplia a possibilidade de perdas financeiras não cobertas, podendo afetar receitas de exportadoras e pressionar a cadeia de crédito rural.

Relação com inflação e juros

O diretor de produtos da Bradesco Seguros alerta que perdas de safra não são totalmente recompostas pelo seguro. Se faltar oferta de alimentos, o preço dos itens in natura tende a subir, refletindo no IPCA. Caso o choque de preços seja persistente, o Banco Central pode reavaliar o ritmo de queda da Selic, afetando o custo de oportunidade de toda a carteira de investimentos.

O que observar como investidor

  • Saneamento de balanços: aumento de sinistralidade pode exigir provisões maiores, impactando lucro de seguradoras listadas.
  • Prêmio de risco climático: contratos de resseguro podem ficar mais caros, repassando custo ao segurado.
  • Setor agro: companhias de insumos e tradings podem sentir volatilidade maior na produção e nos preços das commodities.
  • Inflação de alimentos: impacto no IPCA influencia títulos do Tesouro IPCA+ e remuneração do CDI.

Para o investidor pessoa física, entender como eventos climáticos afetam diferentes classes de ativos — de ações de seguradoras a fundos de agro e títulos indexados à inflação — ajuda a calibrar expectativas de risco, sem a necessidade de decisões precipitadas.

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