A doação de Ken Griffin que levou Pochettino à seleção dos EUA e o que isso diz sobre o negócio do futebol

Camila RochaCamila RochaDificuldades e desafios1 minuto atrás18 Visualizações

Quando o argentino Mauricio Pochettino assumiu a seleção masculina dos Estados Unidos em 2024, poucos sabiam que boa parte de seu salário — pouco mais de US$ 6 milhões anuais, segundo dados fiscais da federação — saiu do bolso de Ken Griffin, fundador da gestora Citadel e um dos homens mais ricos do mundo. O gesto filantrópico ajudou a colocar na prancheta da equipe um técnico acostumado a comandar elencos bilionários como Paris Saint-Germain, Tottenham e Chelsea.

Filantropia ou investimento?

Oficialmente, o valor doado por Griffin foi classificado como contribuição filantrópica. Nessa modalidade, não há expectativa direta de retorno financeiro, mas o doador pode se beneficiar de incentivos fiscais previstos na legislação norte-americana, além de ganhar exposição de marca e reputação.

Para investidores iniciantes, vale entender a diferença entre doação e patrocínio. No patrocínio, a empresa paga para exibir sua marca; na filantropia, o dinheiro apoia uma causa pública, mesmo que indiretamente melhore a imagem do doador. Ambos, porém, movimentam o mesmo ecossistema esportivo que envolve direitos de transmissão, venda de ingressos e consumo de produtos licenciados.

Por que o futebol americano atrai grandes fortunas

  • Copa do Mundo 2026: Estados Unidos, Canadá e México serão sedes do torneio. Grandes eventos costumam atrair turistas, patrocínios globais e investimentos em infraestrutura — fatores que elevam a relevância do futebol no mercado local.
  • Crescimento da MLS: A liga norte-americana tem visto aumento de audiência e de valuations dos clubes, impulsionada pela chegada de astros internacionais e por acordos de mídia.
  • Mercado consumidor: Com alta renda per capita, os EUA representam terreno fértil para venda de camisas, streaming, apostas esportivas regulamentadas e publicidade segmentada.

A presença de Pochettino é, portanto, parte de uma estratégia maior: tornar a seleção competitiva justamente quando o país sediará o maior evento do esporte. Ao acelerar esse processo, a doação de Griffin atua como capital-semente para um possível ciclo virtuoso de receitas.

Impacto econômico mais amplo

Embora seja impossível prever lucros específicos, alguns efeitos econômicos são tangíveis:

  • Emprego temporário: Grandes competições geram vagas em segurança, alimentação, transporte e turismo.
  • Giro de caixa em bares e restaurantes: Já na Copa de 2026, a rede hoteleira e o comércio local tendem a sentir aumento de demanda, fenômeno que começa a ser observado em jogos preparatórios.
  • Mídia e direitos de transmissão: Plataformas de streaming e canais esportivos disputam audiência, elevando o valor pago às federações e, por consequência, a verba disponível para investimentos no esporte.

Para o investidor de varejo, o fenômeno não se traduz, necessariamente, em ações óbvias para comprar ou vender. No entanto, entender como o dinheiro entra no esporte ajuda a analisar empresas ligadas a:

  • serviços de entretenimento e streaming;
  • equipamentos esportivos;
  • infraestrutura (construção e reformas de estádios);
  • turismo e hospitalidade.

Salário acima da média e “efeito escada”

O pagamento anual superior a US$ 6 milhões colocou Pochettino muito à frente do seu antecessor na folha da U.S. Soccer. Quando salários sobem nesse nível, outros profissionais da cadeia — preparadores, fisiologistas, analistas de desempenho — tendem a negociar valores mais altos, gerando o chamado efeito escada. Esse mecanismo já é conhecido em ligas como NBA e NFL, onde contratos recordes elevam a régua salarial de todo o mercado.

A doação de Ken Griffin que levou Pochettino à seleção dos EUA e o que isso diz sobre o negócio do futebol - Imagem do artigo original

Imagem: Eric Revell FOXBusiness

Consequências para o torcedor-investidor

A contratação de um técnico de elite reforça a tese de que o futebol pode ganhar espaço no portfólio emocional — e às vezes financeiro — dos fãs americanos, aproximando-se de esportes tradicionais como beisebol e futebol americano. Quem acompanha mercados de capitais talvez veja, nos próximos anos, maior número de clubes, fornecedoras de material esportivo e empresas de mídia ligadas ao “soccer” abrindo capital ou recebendo rondas de investimento privado.

Para quem começa a investir, o principal ponto de atenção é separar paixão de decisão financeira. O fato de um bilionário apoiar a modalidade não significa, por si só, que ativos ligados ao futebol terão desempenho superior ao do CDI, da renda fixa ou de outros índices de referência.

O que vem pela frente

A seleção dos EUA encara a Bélgica nas oitavas de final já com a narrativa de “por que não nós?”. Independentemente do resultado, a movimentação de capital privado — simbolizada pelo cheque de Ken Griffin — indica que o projeto de longo prazo do futebol norte-americano ganhou fôlego extra. E onde há mais recursos, há também mais oportunidades e riscos a serem avaliados pelo investidor.

Com a Copa do Mundo batendo à porta em 2026, o relógio corre para federações, marcas e governantes aproveitarem o momento. Para o mercado, o recado é claro: o futebol nos Estados Unidos deixou de ser apenas entretenimento e passou a integrar, de vez, o tabuleiro econômico global.

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