O Santander divulgou suas projeções para a temporada de resultados do segundo trimestre de 2026 (2T26). O banco espera que a fotografia continue dividida: empresas ligadas a commodities devem exibir avanços expressivos, enquanto negócios mais expostos ao mercado interno ainda sentem o aperto dos juros.
Panorama geral: crescimento, mas com polarização
Entre todas as companhias cobertas pelo banco, a estimativa é de alta média de 10% na receita, 23% no Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e 20% no lucro líquido em relação ao mesmo período de 2025.
Contudo, o avanço não será homogêneo:
- Commodities: expectativa de expansão de 11% na receita e salto de 32% no lucro, sob influência direta dos preços do petróleo e da recuperação gradual do aço.
- Setores domésticos: projeção de crescimento mais contido (cerca de 10% na receita e no lucro) em meio a crédito restrito e juros reais elevados, que encarecem financiamentos e freiam o consumo.
Por que as commodities saem na frente?
O barril de petróleo se manteve em patamar elevado ao longo do trimestre, beneficiando produtoras como Petrobras (PETR4) e PRIO (PRIO3). No aço, a demanda interna começou a reagir, o que ajuda Gerdau (GGBR4) e Usiminas (USIM5). Além disso, empresas exportadoras aproveitam a moeda local ainda relativamente fraca, convertendo receitas em dólar em mais reais.
Principais destaques positivos apontados pelo banco
- Petrobras e PRIO – Preços firmes do petróleo e boa execução operacional devem compensar o novo imposto de 12% sobre exportações.
- Bradesco (BBDC4) – Lucro recorrente estimado em R$ 6,97 bilhões, com melhora gradual na rentabilidade.
- Nubank (ROXO34) – Lucro líquido de quase US$ 1 bilhão projetado, apoiado por maior margem financeira.
- Gerdau – Recuperação de volume e preço interno, mesmo com custos de insumos pressionados.
- Smart Fit (SMFT3) – Receita deve crescer 22% graças à plataforma corporativa Totalpass.
- TIM (TIMS3) – Avanço de 7% no Ebitda com reforço de serviços B2B.
- Multiplan (MULT3) – Trimestre turbinado por créditos tributários de PIS/Cofins.
- Fras-le (FRAS3) – Valorização do real reduz impacto de custos em dólar, melhorando margens.
Empresas que podem decepcionar
- Banco do Brasil (BBAS3) – Provisões ainda pesam e o agronegócio segue como ponto de atenção.
- Aura Minerals (AURA33) – Queda de produção de ouro e custos maiores pressionam resultados.
- Natura (NATU3) – Ajustes operacionais no Brasil tendem a encolher receita e margem.
- JBS – Custos maiores na operação de bovinos nos EUA e recuperação lenta em aves.
- Grupo Mateus (GMAT3) – Vendas em mesmas lojas devem recuar 7,5% em ambiente de consumo mais fraco.
- Inter (INBR32) – Crescimento de carteira compensado por custos de risco mais altos.
- Marcopolo (POMO4) e Pague Menos (PGMN3) – Pressão de custos, mix de vendas menos favorável e hiatos em contratos governamentais.
Como os juros entram nessa história?
Apesar de sinais de alívio gradual, a taxa Selic ainda se mantém em nível que reduz o apetite ao consumo e encarece o capital de giro das empresas. Negócios dependentes do mercado interno — varejo, construção civil e algumas instituições financeiras — acabam apresentando crescimento menor de receita e maior pressão sobre margens.
O que observar como investidor
- Custos de capital e inadimplência: bancos e varejistas devem mostrar se a qualidade do crédito melhorou.
- Repasse de preços: no setor de bens de consumo, margens vão indicar poder de repasse em cenário de renda apertada.
- Disciplina de investimentos: em petrolíferas e siderúrgicas, o mercado quer visibilidade de fluxo de caixa diante de projetos de expansão.
- Efeitos não recorrentes: créditos tributários ou impostos extraordinários podem distorcer comparações — vale olhar resultados ajustados.
Para o Santander, os números do 2T26 devem reforçar a preferência do mercado por empresas menos sensíveis aos juros e mais expostas a exportações ou commodities. Ainda assim, os analistas lembram que a temporada, por si só, não altera a narrativa macro: a velocidade do corte de juros e o ritmo da economia seguem como bússola para os próximos trimestres.