O ex-presidente Donald Trump divulgou um plano para impor tarifas graduais sobre medicamentos genéricos fabricados fora dos Estados Unidos. A medida, que ainda depende de regulamentação, mantém as importações com alíquota zero até 1º de agosto de 2028. Depois, a tarifa sobe para 100% por um ano e atinge 200% a partir de 2029.
Por que isso importa para o investidor?
- Cadeia global de suprimentos: hoje, boa parte dos ingredientes farmacêuticos ativos (IFAs) vem de China, Índia e outros mercados emergentes. A taxação tende a encarecer o produto importado ou forçar a migração de fábricas para solo norte-americano.
- Custos e inflação de saúde: genéricos respondem por mais de 90% das receitas médicas nos EUA. Se parte da produção não se deslocar, o preço final pode subir, pressionando índices de inflação médica e, indiretamente, o orçamento público de saúde.
- Ações do setor farmacêutico: empresas com plantas já instaladas nos EUA podem ganhar competitividade. Companhias dependentes de unidades na Ásia poderão enfrentar maior dispêndio de capital (CAPEX) para “reshoring”.
- Mercado cambial: tarifas desse porte costumam fortalecer o dólar em momentos de incerteza comercial, pois investidores buscam proteção em ativos norte-americanos. Um dólar mais forte costuma afetar emergentes e a balança brasileira.
Entenda a escalada tarifária
Fase de transição (até julho/2028): alíquota permanece em 0%, mantendo o custo atual.
Primeiro reajuste (agosto/2028 a julho/2029): tarifa de 100%, dobrando o preço de importação para quem mantiver produção no exterior.
Tarifa plena (a partir de agosto/2029): 200%, tornando economicamente inviável competir apenas com importação.
Reação da indústria
A Association for Accessible Medicines, que reúne fabricantes de genéricos nos EUA, afirmou apoiar políticas de fortalecimento da produção doméstica, mas quer detalhes sobre o desenho final da medida. A entidade lembra que, mesmo com investimentos recentes em fábricas locais, questões de reembolso e margens apertadas ainda travam novos projetos.
Impacto econômico e possíveis desdobramentos
- Investimento em fábricas: o governo aposta que dois anos são suficientes para que empresas ergam ou ampliem unidades nos EUA. Isso pode aquecer setores de construção industrial, equipamentos e logística.
- Empresas brasileiras: laboratórios nacionais que exportam para o mercado norte-americano — ainda que em menor escala — precisarão avaliar se vale a pena montar linhas de produção em território americano ou recorrer a parcerias locais.
- Política comercial: a medida reforça a tendência de protecionismo vista desde a pandemia, quando Washington identificou dependência externa em itens considerados estratégicos, como insumos médicos e semicondutores.
- Mercado de juros: um eventual aumento de custos pode pressionar a inflação nos EUA. Caso esse cenário se materialize, o Federal Reserve tende a manter juros mais elevados por mais tempo, influenciando a trajetória da Selic no Brasil via câmbio e fluxo de capitais.
O que são genéricos?
Genéricos são cópias de medicamentos cujas patentes expiraram. Como não envolvem pesquisa original, costumam custar menos que os remédios de marca. Nos EUA, eles representam a vasta maioria das prescrições, mas apenas parte da despesa total em medicamentos, o que torna o segmento sensível a variações de preço.
Imagem: Brittany Miller FOXBusiness
A partir de agora, investidores devem monitorar três frentes: (1) anúncios de novas plantas farmacêuticas nos EUA, (2) eventuais repasses de custos para o consumidor e (3) repercussão do protecionismo sobre cadeias globais de suprimentos. O tema seguirá no radar de quem acompanha saúde, câmbio e inflação.