Gestores veem “ressaca” fiscal após ano de gastos e alertam para possível recessão em 2027

Ricardo AlmeidaRicardo AlmeidaMercado Financeiro12 horas atrás18 Visualizações

O aumento de gastos do governo em 2026 dominou um painel da Expert XP, em São Paulo. Para Luiz Parreiras, gestor da Verde Asset, o país vive “uma orgia de estímulos fiscais e parafiscais” que deve cobrar seu preço já em 2027. Outros dois economistas — Jeferson Bittencourt, do ASA, e Mariano Steinert, da Genoa Capital — endossaram a visão.

Por que os gestores falam em “ressaca”

Os especialistas observam que programas como o Brasil Soberano 3 elevam o gasto real bem acima do crescimento potencial da economia, estimado hoje em cerca de 1,5% ao ano. Nesse cenário, a política monetária acaba funcionando como “freio”, mantendo a Selic alta para conter a inflação gerada pelo excesso de demanda.

  • Curto prazo: estímulos sustentam a atividade, favorecendo o PIB de 2026.
  • Médio prazo: aumento da dívida pública pressiona juros futuros e o custo de rolagem da dívida.
  • Longo prazo: sem reformas, o ajuste costuma vir via desaceleração econômica ou recessão.

Impacto para o investidor iniciante

Quando o governo gasta mais do que arrecada, precisa se financiar emitindo dívida. Isso tende a elevar as taxas de renda fixa indexadas ao CDI ou ao Tesouro Direto, mas também pode frear o desempenho de ações se as empresas enfrentarem juros mais altos e menor consumo.

  • Renda fixa: títulos pós-fixados podem pagar prêmios maiores, mas a inflação alta corrói o ganho real se o Banco Central não reagir com força.
  • Bolsa: setores sensíveis a crédito, como varejo e construção, costumam sofrer primeiro em ciclos de aperto monetário.
  • Dólar: maior incerteza fiscal costuma pressionar a cotação, o que pode beneficiar exportadoras, mas encarece importados e viagens.

Reformas continuam fora do radar eleitoral

Segundo Jeferson Bittencourt, temas como ajuste de gastos ou novas âncoras fiscais não apareceram na campanha de 2026. A experiência recente indica que propostas de maior rigor orçamentário só ganham espaço após crises, como ocorreu com o teto de gastos aprovado na esteira da recessão de 2015-2016.

“Torcer para a recessão” não é contradição

Mariano Steinert, da Genoa, argumenta que uma recessão moderada em 2027 poderia ajudar o Banco Central a trazer a inflação de volta à meta. Na visão dele, o pior cenário seria combinar retração econômica com inflação ainda teimosa, o chamado estagflação.

O que observar daqui para frente

  • Trajetória da Selic: se a conta fiscal apertar, o BC pode ter de manter os juros altos por mais tempo.
  • Expectativas de inflação: revisões para cima nos boletins econômicos podem sinalizar ajuste monetário adicional.
  • Resultado primário: acompanhar relatórios bimestrais de receita e despesa ajuda a medir a gravidade do desvio fiscal.
  • Retórica eleitoral: propostas concretas de contenção de gastos ou reforma administrativa tendem a acalmar o mercado.

Para investidores iniciantes, a principal lição é entender que política fiscal e monetária andam de mãos dadas: estímulos hoje podem significar juros altos e atividade fraca amanhã. A diversificação entre prazos e classes de ativos segue sendo a forma mais prudente de atravessar períodos de incerteza.

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