
A Movida melhorou o desempenho no segundo trimestre ao aumentar a ocupação dos veículos, elevar as tarifas médias e manter os carros alugados por mais tempo. A receita de locação avançou mais do que a frota, o que ajudou a ampliar as margens e fez o lucro líquido passar de R$ 68 milhões para R$ 136 milhões, mesmo em um período considerado sazonalmente mais fraco para o setor.
A receita líquida consolidada cresceu 2,4% em relação ao mesmo período de 2025 e chegou a R$ 3,77 bilhões. O número agregado, porém, reúne movimentos diferentes entre as áreas da companhia: a receita de locação subiu 21%, para R$ 2,3 bilhões, enquanto a venda de veículos seminovos recuou de R$ 1,79 bilhão para R$ 1,47 bilhão.
A mudança na composição da receita favoreceu o resultado porque a operação de aluguel tem margens superiores às da venda de veículos. O Ebitda consolidado, indicador usado para acompanhar o desempenho operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, alcançou R$ 1,69 bilhão, alta de 22%.
O principal avanço veio do rent-a-car, modalidade de aluguel de curto prazo. O volume de diárias aumentou 22%, para 7,4 milhões. A tarifa média subiu 7%, para R$ 165, e a ocupação chegou a 76,2%, avanço de 2,1 pontos percentuais em relação a um ano antes.
Gustavo Moscatelli, CEO da Movida, afirmou que o desempenho não representa uma mudança brusca na demanda por aluguel de carros. Na avaliação dele, parte relevante da melhora veio de decisões tomadas pela própria empresa nos últimos dois anos, como ajustes de preços, mudanças nas lojas e investimentos em tecnologia e atendimento.
Com uma frota próxima de 285 mil veículos e quase R$ 25 bilhões investidos, a companhia diz que sua prioridade não é necessariamente colocar mais carros em circulação, mas aumentar o retorno gerado pelos ativos que já possui. “Tem muita massa crítica para gerar valor sem precisar crescer. O foco da companhia hoje é produtividade e eficiência operacional”, afirmou Moscatelli em entrevista ao InvestNews.
Essa estratégia envolve elevar a ocupação, ajustar preços e reduzir custos de manutenção. O retorno sobre o capital investido, conhecido pela sigla ROIC, chegou a 16,7% nos últimos 12 meses, ante 12,7% um ano antes. A diferença entre esse retorno e o custo médio da dívida após impostos ficou em 5,7 pontos percentuais.

Na atividade de locação, a rentabilidade não depende apenas do valor das diárias. O preço pelo qual o veículo será vendido ao fim do ciclo também influencia o resultado, porque uma queda no valor de revenda aumenta a depreciação registrada pela empresa.
Esse risco ganhou atenção com a ampliação dos descontos oferecidos pelas montadoras e o aumento da oferta de modelos de fabricantes chineses no Brasil. Uma eventual queda mais forte nos preços dos carros novos tende, em algum momento, a pressionar também os veículos usados e elevar a depreciação das locadoras.
A Movida afirma que o perfil de sua frota reduz essa exposição. Há três anos, a empresa passou a concentrar as compras em veículos de entrada, como Fiat Argo e Renault Kwid. Segundo Moscatelli, 84% da frota está contabilizada por aproximadamente R$ 73 mil por veículo.
Essa faixa de preço é diferente daquela em que boa parte das novas marcas concentra seus lançamentos, acima de R$ 100 mil. A tese apresentada pela companhia é que os públicos são diferentes e que, até o momento, não houve deterioração relevante nos preços dos modelos mais baratos.
No trimestre, a depreciação anualizada por carro permaneceu estável em R$ 7,2 mil no aluguel de carros e em R$ 11 mil na gestão de frotas. A estabilidade, contudo, não elimina o risco relacionado ao valor dos veículos no mercado de usados.
A Movida vendeu 19,4 mil seminovos no período, contra 25,9 mil um ano antes. Moscatelli afirmou que a redução foi deliberada: diante da demanda maior por aluguel, a companhia preferiu manter os veículos por mais tempo no rent-a-car, em vez de desmobilizá-los. De acordo com ele, a idade dos carros continua entre dez e 12 meses.

Mesmo com o menor volume de unidades vendidas, o giro mensal dos estoques de seminovos subiu de 0,5 para 0,8 vez. A margem Ebitda da operação permaneceu em 1,1%.
A melhora operacional ocorreu sobre uma estrutura de capital ainda pesada. A dívida líquida da Movida encerrou junho em R$ 17,2 bilhões.
A relação entre dívida líquida e lucro operacional recuou de 2,90 vezes no segundo trimestre de 2025 para 2,66 vezes. Já o custo médio da dívida ficou em CDI mais 1,8% ao ano. O CDI é uma taxa de referência usada no mercado financeiro e aparece, nesse caso, como componente do custo de financiamento da empresa.
Raquel Brandão é jornalista de negócios no InvestNews. Com mais de uma década de carreira, passou por Estadão, Valor e Exame. É especialista pela FGV e tem MBA pela USP. Foi eleita três vezes uma das jornalistas mais admiradas de Economia e Negócios, com foco em varejo, empresas e bens de consumo.
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