
A China iniciou neste sábado (15) o primeiro serviço regular de transporte de cargas para a Europa por águas do Ártico. A rota, operada pela armadora Sea Legend, liga Ningbo, na China, a Felixstowe, no Reino Unido, e busca reduzir o tempo de viagem e o consumo de combustível em comparação com trajetos mais longos.
O navio Dubai Tower, com capacidade para transportar 1,7 mil contêineres, seguirá pela costa norte da Rússia no serviço chamado Arctic Express. A operação representa o maior passo comercial no Ártico desde que um porta-contêineres da Maersk completou a rota pela primeira vez, em 2018.
A Sea Legend realizou no ano passado uma viagem de teste entre a Ásia e a Europa em 20 dias, um recorde. O período corresponde a cerca de metade do tempo de um trajeto pelo Cabo da Boa Esperança, na África, rota adotada por muitas armadoras diante da incerteza no Mar Vermelho.
O combustível representa 70% ou mais dos custos de uma operação em alto-mar, de acordo com Alan Murphy, ex-analista da Maersk e comandante da empresa de pesquisa Sea-Intelligence. Por isso, uma viagem mais curta pode reduzir uma das principais despesas do transporte marítimo.
A economia, porém, não é automática. Jonathan Steenberg, economista da seguradora de crédito Coface, afirmou que os prêmios de seguro para navegar no Ártico são 40% superiores aos da rota pelo Cabo da Boa Esperança. Além disso, os navios árticos da Sea Legend são relativamente pequenos e, em determinadas situações, ainda precisam da assistência de um quebra-gelo.
Quando a embarcação consegue atravessar sem esse apoio, a rota ártica pode ser mais barata que a do Cabo da Boa Esperança. A Coface estima que, com o petróleo perto de US$ 90, o custo do transporte de granéis líquidos, como gás natural liquefeito, pode cair cerca de 33%. Para granéis sólidos, como cereais, a redução estimada é de aproximadamente 8%.
A rota só é navegável durante o verão e o outono. A Sea Legend planeja realizar oito viagens entre agosto e o fim de outubro, antes que as condições climáticas fiquem gélidas demais.
Mesmo no verão, os navios precisam desviar de blocos de gelo perigosos e enfrentar mudanças rápidas no tempo. No fim da temporada, em outubro, o céu permanece escuro durante a maior parte do tempo, o que aumenta a dificuldade da navegação.

Um petroleiro russo sofreu danos sérios no casco enquanto navegava pela rota ártica, apesar de contar com o auxílio de um quebra-gelo. O caso foi informado na quinta-feira pela seguradora do navio, a AlfaStrakhovanie, que também declarou ter pago cerca de US$ 650 mil.
Malte Humpert, fundador do Arctic Institute, nos Estados Unidos, e autor de um livro sobre a navegação chinesa no Ártico, avaliou que o número de viagens planejadas mostra potencial, embora a rota ainda esteja longe da escala do Canal de Suez. “Não é o Canal de Suez, mas trata-se de um número significativo para o Ártico. Mostra que há potencial”, disse.
A Coface estima que 3,5% do comércio entre o Leste Asiático, a Europa e a América do Norte poderá utilizar rotas árticas nos próximos cinco anos. Esse percentual equivaleria a US$ 64 bilhões em mercadorias.
No verão passado, um recorde de 23 cargueiros passou pela Rota Marítima do Norte, que acompanha a costa norte da Rússia. O volume ainda é muito pequeno em comparação com o Canal de Suez, por onde passavam mais de 30 navios por dia.
Existe também a Passagem Noroeste, que conecta os oceanos Atlântico e Pacífico pelo Ártico canadense. Essa alternativa é menos navegável porque possui canais estreitos onde o gelo se acumula. O maior número de cargueiros a concluir a travessia em um único ano foi 13, em 2023.
Além dos possíveis ganhos de tempo e combustível, a nova operação tem uma dimensão geopolítica. A Rússia reivindica soberania sobre toda a Rota Marítima do Norte, e as licenças para o tráfego de navios são emitidas pela Rosatom, sua operadora nuclear estatal.
Empresas ocidentais interessadas em seguir o caminho da Sea Legend enfrentariam, portanto, riscos econômicos, ambientais e políticos. “As empresas ocidentais estão numa posição delicada”, disse Humpert. Para ele, ainda é necessário avaliar em que momento a navegação pelo Ártico se tornaria economicamente necessária e como essa necessidade seria ponderada diante dos riscos ambientais e da dimensão política.

A China se declarou um Estado quase ártico, embora não tenha acesso direto às águas da região. Para utilizar a Rota Marítima do Norte, depende da boa vontade da Rússia.
Marc Lanteigne, especialista em geopolítica polar da Universidade do Ártico da Noruega, em Tromsø, afirmou que Pequim teme perder espaço estratégico se não estabelecer uma presença significativa no Ártico agora. Ao mesmo tempo, ponderou que a China precisa evitar a impressão de que pretende desafiar a ordem estratégica da região.
“Pequim teme que, se não estabelecer uma presença estratégica significativa no Ártico agora, isso vá ficar mais difícil no futuro”, disse Lanteigne. “Mas a China precisa tomar cuidado para não dar a impressão de que está tentando desafiar a ordem estratégica no Ártico.”
A Sea Legend não respondeu aos pedidos de comentário.
O esforço chinês no Ártico também inclui três quebra-gelos e um navio de apoio em uma expedição científica de meses ao norte da Groenlândia. Viagens científicas e comerciais podem produzir dados sobre recursos naturais sob as calotas de gelo em degelo e informações para o posicionamento de submarinos com armas nucleares.
O aquecimento global contribuiu para a abertura da rota: quase metade do gelo de verão do Ártico, uma área equivalente a dois terços da Amazônia, derreteu em cinco décadas. Ainda assim, o petróleo caro e os ataques dos rebeldes houthis no Mar Vermelho também elevaram o custo e o risco das rotas tradicionais. A operação da Sea Legend terá oito viagens entre agosto e o fim de outubro, quando o período navegável deverá terminar.
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