
A Shein está programada para estrear na bolsa de Hong Kong em 1º de setembro, mas chegará ao mercado acionário em um cenário diferente do que sustentou sua rápida expansão. A empresa trabalha agora com uma avaliação de US$ 27 bilhões, depois de reduzir o valuation considerado para a operação.
O valor está abaixo da faixa de US$ 30 bilhões a US$ 40 bilhões considerada no início de agosto e distante dos US$ 98,2 bilhões alcançados pela companhia em uma rodada de financiamento realizada em 2022. A redução ocorre enquanto o crescimento da receita perde força e os custos para manter o negócio aumentam.
A receita líquida da companhia subiu de US$ 32,1 bilhões em 2023 para US$ 41,8 bilhões em 2025. O ritmo de expansão, porém, caiu significativamente: foi de 41,1% em 2023, passou para 20,7% em 2024 e chegou a 8% em 2025.
No primeiro trimestre de 2026, o avanço anual foi de apenas 1,1%, para US$ 9,1 bilhões.
A base de clientes ativos aumentou de 230 milhões em 2024 para 273 milhões em 2025. A frequência de compras, entretanto, permaneceu praticamente estável, em cerca de quatro pedidos por cliente ao ano. Isso indica que a empresa continuou atraindo consumidores, mas sem aumento relevante na quantidade de pedidos feitos individualmente.
O lucro operacional, medido pelo Ebitda — indicador que mostra o resultado antes de despesas financeiras e impostos — caiu de US$ 1,38 bilhão em 2023 para US$ 966 milhões em 2024. Em 2025, o valor voltou a subir, alcançando US$ 1,71 bilhão.
Uma das pressões está nas despesas de fulfillment, que incluem etapas como armazenagem, separação e entrega dos pedidos. Esses custos consumiram 45,6% da receita em 2025, ante 43,5% no ano anterior.
As despesas de marketing também aumentaram. No primeiro trimestre de 2026, chegaram a US$ 1,43 bilhão, acima dos US$ 1,09 bilhão registrados no mesmo período do ano anterior. Assim, a companhia passou a gastar mais para sustentar uma operação que cresce em ritmo menor.
A questão para os investidores é quanto do modelo que impulsionou a Shein ainda pode ser mantido sem comprometer a rentabilidade. A empresa precisa continuar vendendo em grande escala sem que tarifas, logística, marketing e investimentos em estruturas locais consumam uma parcela cada vez maior da receita.
A expansão da Shein foi construída sobre uma cadeia flexível de fornecedores chineses, uma grande variedade de produtos e o envio direto aos consumidores em diferentes mercados. Esse modelo ficou mais caro nos Estados Unidos, país que respondeu por aproximadamente 25% da receita da companhia em 2025.

Em maio de 2025, os Estados Unidos encerraram a regra que permitia a entrada, sem pagamento de tarifas de importação, de encomendas de até US$ 800. A isenção era conhecida no país como de minimis. A mudança atingiu diretamente empresas como Shein e Temu, cuja receita depende em grande parte do envio de pequenos pacotes diretamente da China para consumidores americanos.
De acordo com relatório divulgado pelo BTG, a própria Shein informa em seu prospecto que produtos de origem chinesa enviados aos Estados Unidos podem estar sujeitos a impostos de 10% a 87,5%, dependendo do produto e do regime aplicável.
Na Europa, as regras para encomendas de baixo valor também estão ficando mais rígidas. A Shein ainda enfrenta maior escrutínio regulatório e a concorrência da Temu e de varejistas tradicionais.
Esse ambiente tem levado a companhia a ampliar os investimentos em estruturas locais, como armazéns. A medida reduz parte da vantagem de custos proporcionada pelo envio direto de produtos a partir da China.
O movimento tem um paralelo com as mudanças ocorridas no Brasil na tributação de compras internacionais de baixo valor. Desde maio de 2026, compras de até US$ 50 realizadas dentro do Remessa Conforme deixaram de pagar Imposto de Importação, mas continuam sujeitas ao ICMS.
O impacto sobre o modelo da Shein é descrito como mais direto nos Estados Unidos, onde a empresa informa no prospecto a possibilidade de incidência de impostos de 10% a 87,5% sobre produtos chineses, conforme o produto e o regime aplicável.
Para o BTG, o conjunto de custos maiores, mudanças comerciais e maior pressão regulatória altera a discussão sobre a empresa antes do IPO. O principal desafio passa a ser preservar o crescimento e a rentabilidade em um ambiente menos favorável, mais do que apenas alcançar um determinado tamanho.
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