Safra de soja do Brasil pode pressionar preços do diesel no mundo

O início do plantio de soja e algodão no Brasil deve aumentar a procura global por diesel justamente quando a oferta do combustível está pressionada. O movimento pode elevar os custos dos agricultores brasileiros e ampliar a disputa pelo diesel produzido nos Estados Unidos, principal fornecedor mundial do produto.

O Brasil é o maior exportador mundial de produtos agrícolas importantes, como soja, algodão, café, açúcar e suco de laranja. Tratores e caminhões usados nessas atividades dependem do diesel, o que faz com que uma alta do combustível pressione os custos de produção e possa se espalhar pelas cadeias globais de abastecimento.

O país também é o segundo maior importador de diesel do mundo, atrás apenas da Austrália. Com o pico sazonal do plantio brasileiro, a necessidade de importação tende a agravar o aperto no mercado internacional e a aumentar a dependência do combustível americano.

Por que o plantio brasileiro afeta o mercado de diesel

A demanda pelo diesel fabricado nos Estados Unidos já está elevada e deve crescer nos próximos meses por causa da combinação entre o plantio de soja e algodão no Brasil e a comercialização da safra de milho de inverno recém-colhida.

Essa sobreposição entre plantio no Hemisfério Sul e colheita no Hemisfério Norte leva a demanda por diesel ao pico. O consumo pode ficar quase 200 mil barris por dia acima do nível registrado na entressafra. Em três dos últimos quatro anos, as importações brasileiras de diesel e gasóleo atingiram o maior volume em setembro, segundo dados da Vortexa.

Irineu Orth, agricultor de 76 anos, prepara-se para semear uma área de 22 mil acres, quase do tamanho da Disney World, em uma fazenda na Bahia. Ele terminou nesta semana a colheita da safra de inverno e pretende começar o novo plantio em meados de setembro.

“Tudo o que nós, agricultores, fazemos envolve diesel de uma forma ou de outra, e esses custos estão simplesmente consumindo nossa margem”, afirmou Orth.

Conflitos reduziram as alternativas de fornecimento

A guerra no Irã desorganizou os mercados globais de energia. Embora parte do petróleo bruto tenha voltado a atravessar o Estreito de Ormuz, o transporte marítimo de derivados, como o diesel, caiu para níveis mínimos nessa rota.

A Rússia, uma das principais fornecedoras do combustível, proibiu as exportações em meio a ataques ucranianos contra refinarias. A restrição reduziu ainda mais a oferta disponível no mercado global.

Desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, em 2022, as refinarias americanas perderam participação no fornecimento de diesel ao Brasil. Antes do conflito, elas chegaram a responder por mais de 80% do diesel importado pelo país. Com o diesel russo impedido de entrar no mercado europeu, os carregamentos passaram a ser direcionados para Turquia, Brasil e países africanos.

Essa tendência mudou em alguns momentos. Em julho, quando a Rússia proibiu as exportações, o Brasil comprou o maior volume de diesel americano em quase quatro anos, de acordo com dados aduaneiros compilados pela Bloomberg. No mesmo período, as importações provenientes da Rússia caíram mais da metade em relação a maio.

Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, que anteriormente tinham papéis secundários no fornecimento ao Brasil, também enfrentam limitações causadas pelas interrupções no transporte pelo Estreito de Ormuz.

Estoques americanos estão baixos

As refinarias brasileiras operam com utilização próxima de 95% da capacidade, segundo Susan Bell, vice-presidente sênior de pesquisa de refino e distribuição da Rystad Energy. Apesar do nível de operação, o Brasil ainda precisa importar diesel para atender à demanda.

“Os Estados Unidos já não têm estoques suficientes para preencher essa lacuna”, afirmou Bell.

As refinarias americanas operam em um ritmo não visto desde antes da pandemia de covid-19, com produção de diesel bem acima da média para esta época do ano. A margem de lucro do combustível está próxima de máximas históricas, e as exportações atingiram um novo recorde semanal no início de agosto.

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Foto: Foto: reprodução

Ao mesmo tempo, os estoques americanos estão nos menores níveis já registrados para este período do ano. O cenário ocorre poucas semanas antes do início da temporada de colheita nos Estados Unidos e do momento em que empresas de aquecimento residencial começam a formar estoques de óleo para aquecimento, produto que pode ser substituído por diesel.

Com a oferta já comprometida, não há um mecanismo evidente que permita aumentar drasticamente a produção disponível.

“Setembro é um dos meses mais fortes do ano”, disse Bell. “Há a temporada de plantio no Hemisfério Sul, a temporada de colheita no Hemisfério Norte e a demanda por diesel e gasóleo realmente atinge o pico em outubro.”

Importações podem mudar de origem

Uma pequena flotilha de navios-tanque carregados de combustível partiu de portos do Golfo do México, nos Estados Unidos, em direção ao Brasil, a maior economia da América Latina.

Os custos de transporte indicam que o diesel proveniente de Ulsan, na Coreia do Sul, é atualmente a opção mais viável para desembarque em Santos. Ao mesmo tempo, os carregamentos americanos ficaram menos favoráveis do ponto de vista econômico, afirmou Nikolas Plonski, analista do mercado de petróleo da Sparta Commodities.

Essa vantagem do diesel sul-coreano, porém, vale apenas até o fim de outubro. Depois disso, com a demanda ainda elevada e o plantio brasileiro avançando até dezembro, as exportações de Houston devem voltar a ser economicamente viáveis.

Por enquanto, o mercado global de diesel parece capaz de atravessar o outono no Hemisfério Norte sem chegar a uma crise caracterizada por filas nos postos e destruição generalizada da demanda. Bell, no entanto, afirmou que esse cenário não está muito distante.

“Estamos no limite do equilíbrio”, disse. “Basta que uma grande refinaria dos Estados Unidos pare inesperadamente.”

Preços no Brasil continuam elevados

Os preços do diesel no Brasil continuam altos, embora tenham recuado em relação aos picos de março. A queda ocorreu com as refinarias da Petrobras operando a plena capacidade.

Para Isabella Chiodi, analista da Energy Aspects, em Houston, esse nível de operação aumenta as preocupações sobre a sustentabilidade do ritmo das refinarias brasileiras.

“Se uma das grandes refinarias sofresse uma interrupção, as importações, especialmente as provenientes da Costa do Golfo dos Estados Unidos, aumentariam substancialmente”, disse.

Para os agricultores, a elevação do custo do combustível reduz as margens durante o plantio e a colheita. Orth afirmou que há pouco a fazer para compensar os preços elevados nas bombas. “Se há algo que aprendi desde que dirigi meu primeiro trator, aos 12 anos, é que, como agricultores, precisamos seguir em frente”, declarou. “Você faz o que precisa ser feito.”

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