BIS aponta riscos das stablecoins e defende depósitos tokenizados

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Pablo Hernández de Cos, gerente-geral do BIS, afirmou que as stablecoins enfrentam problemas para se tornar o futuro do dinheiro e defendeu os depósitos tokenizados como alternativa. A declaração ocorreu durante o Simpósio de Política Econômica de Jackson Hole.

Apesar das críticas, o dirigente não propôs o desaparecimento das stablecoins. Na avaliação apresentada, os dois modelos poderiam coexistir, com funções diferentes dentro do sistema financeiro.

Fragmentação é um dos problemas apontados pelo BIS

Para Hernández de Cos, um sistema monetário eficaz precisa reunir três características: unicidade, interoperabilidade e integridade. Na prática, isso significa que diferentes formas do mesmo dinheiro devem manter o mesmo valor, funcionar em sistemas distintos e estar sujeitas a controles contra atividades ilícitas.

O gerente-geral do BIS avalia que as stablecoins enfrentam dificuldades nesses três pontos. Um exemplo citado envolve uma pessoa que possui USDT enquanto outra aceita apenas USDC. Nesse caso, seria necessário recorrer ao mercado secundário para trocar uma moeda pela outra, com possibilidade de perda de parte do valor por diferentes motivos.

O problema de interoperabilidade também poderia aparecer quando uma mesma stablecoin fosse emitida em duas redes diferentes. Além disso, Hernández de Cos afirmou que as stablecoins operam em redes com pseudoanonimato, o que dificulta a aplicação de regras de prevenção à lavagem de dinheiro e de combate ao financiamento do terrorismo.

Na visão do executivo, os depósitos tokenizados não teriam as mesmas dificuldades. Seria mais simples transferir recursos de um banco para outro, especialmente se um Banco Central também adotasse essa solução. A fiscalização das contas e das transações também poderia ser facilitada.

Reservas das stablecoins podem afetar crédito e estabilidade financeira

Hernández de Cos também chamou atenção para os efeitos de uma eventual adoção em grande escala das stablecoins e para os ativos usados como reserva para dar lastro a essas moedas.

Ele afirmou que, diante dos atuais desenvolvimentos regulatórios, três tipos de ativos estão em foco: depósitos bancários de atacado, títulos públicos de curto prazo e reservas no banco central. Essas escolhas influenciam o financiamento dos bancos e, por consequência, a concessão de crédito e a estabilidade financeira.

Se as reservas fossem mantidas predominantemente em depósitos bancários de atacado, o financiamento de varejo seria substituído por passivos de atacado mais concentrados e mais sensíveis às taxas. Isso elevaria os custos marginais de financiamento dos bancos e poderia apertar as condições de crédito.

Se as reservas fossem mantidas principalmente em títulos públicos de curto prazo, poderia surgir um efeito adicional caso os bancos vendessem esses títulos aos emissores de stablecoins. Essa movimentação reduziria os ativos líquidos de alta qualidade mantidos pelos bancos.

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Foto: Foto: reprodução

Já se as reservas fossem mantidas em grande parte no banco central, a expansão das stablecoins drenaria reservas do banco central para fora do setor bancário.

Na avaliação do gerente-geral do BIS, os depósitos tokenizados poderiam manter os recursos dentro do sistema bancário. Com isso, reduziriam o risco de desintermediação e apoiariam a resiliência do sistema.

Stablecoins poderiam continuar em funções específicas

Embora as declarações de Hernández de Cos possam ser interpretadas como uma crítica às stablecoins, ele afirmou que elas poderiam continuar existindo ao lado dos depósitos tokenizados.

“Os depósitos tokenizados deveriam responder pela maior parte dos pagamentos cotidianos e da liquidação no atacado, dentro de limites prudenciais e com liquidação em dinheiro do banco central. As stablecoins poderiam desempenhar funções especializadas, por exemplo, em pools de empréstimos descentralizados. Mas deveriam fazê-lo sob regimes robustos e transparentes que garantam o resgate pelo valor nominal quando utilizadas para pagamentos. Alternativamente, poderiam ser tratadas explicitamente como produtos de investimento, com regras apropriadas de conduta e divulgação.”

Nesse arranjo, os depósitos tokenizados ficariam associados aos pagamentos cotidianos e à liquidação no atacado, enquanto as stablecoins poderiam ser usadas em funções especializadas, como pools de empréstimos descentralizados. Para pagamentos, porém, o executivo defendeu regimes robustos e transparentes que garantam o resgate pelo valor nominal. Outra possibilidade seria tratar as stablecoins explicitamente como produtos de investimento, com regras adequadas de conduta e divulgação.

Hernández de Cos também observou que o BIS já havia tratado dos riscos das stablecoins e recomendado supervisão em seu relatório anual publicado em junho.

O gerente-geral reconheceu, por outro lado, que a tokenização oferece ganhos reais, incluindo programabilidade, liquidação atômica e operações 24 horas por dia, sete dias por semana. A ressalva apresentada foi que essa tecnologia precisa ser implementada de forma correta.

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